VITRIOL- O PROCESSO MAÇÔNICO DE INDIVIDUAÇÃO
Alquimia, uma curiosidade especulativa
A alquimia, como prática operativa, hoje constitui mais uma curiosidade do que uma ocupação profissional. Se ainda existem adeptos dessa estranha ciência que eliciou espíritos da mais alta envergadura no início da era cristã, principalmente na Idade Média e durante a chamada Idade Moderna, eles agora podem ser vistos como reminiscências de um mundo arquetípico que a mentalidade iluminista instalada, principalmente no Ocidente, relegou à categoria de uma excentricidade própria de épocas em que o espirito humano era dominado pela atração que sobre ele exercia o poder do numinoso.

Curiosidade especulativa, de fato, se tornou a alquimia. Mas houve um tempo em que ela foi coisa tão séria que a própria vida do praticante era um projeto que ocupava suas existências inteiras, como um apostolado que nada devia a um monge que adotasse, com todas as forças da sua alma, as vestes eclesiásticas.
É certo que uma expressiva maioria desses amadores do insólito, certamente se engajou nessas bizarras ocupações sem ter a mínima consciência do que estavam fazendo. Principalmente os chamados “sopradores”, que, atraídos pela ideia de fabricar ouro, embarcaram no magistério hermético com fins unicamente de uma vida fácil, sustentada por um ambicioso potentado.
Ainda hoje se pode contemplar, em cidades como Praga, Paris, Londres e outras metrópoles europeias, laboratórios desses sopradores. Neles encontraremos uma equipagem desenvolvida exatamente para a prática desses estranhos fabricadores de ouro, que na linguagem hermética da época, eram chamados pelos cabalistas franceses (que tinham a si mesmos como os verdadeiros alquimistas) de chat-qui-pelote (gato malabarista), pelo fato de considerarem esses falsos alquimistas como malandros embusteiros que usavam a sua Arte para enganar os incautos. Segundo escreve Bernard Rogers ( Conhecendo a Alquimia, pg 55) havia em Paris, por volta dos fins do século XIX, uma taberna que reunia essa classe especial de sopradores, onde se dizia, eram “pescados” os clientes das suas esparrelas. Essa taberna, inclusive, também serviu de título e inspiração para um trabalho homônimo do grande escritor francês Honoré de Balzac, que dá início à sua famosa coletânea de romances que analisa a sociedade francesa do século XIX.
Vivia-se uma época de intensa procura pelo ouro, pois a posse desse mineral determinava a quantidade e a qualidade do poder que poderia ser comprado. Daí o próspero mercado que os “sopradores” encontraram entre príncipes, reis e potentados da Igreja, sempre envolvidos em custosas e prolongadas guerras. Não era raro a contratação de um alquimista por um soberano, um bispo poderoso, e mesmo comerciantes e empresários de grande envergadura para fabricar, para eles, o ouro alquímico. Mas quando seus embustes eram descobertos, já que a fabricação de ouro através de métodos alquímicos nunca se provou ser verdadeira, ou que, pelos menos nunca foi demonstrada cientificamente, eles eram punidos, muitas vezes com a morte na fogueira ( condenados por heresia ou prática de feitiçaria), decapitados ou enforcados em praça pública por lesa majestade.
Um dos chefes de estado que mais utilizaram alquimistas nessa tarefa foi o Rei Rudolf II, da Bohemia (1576-1612), que transformou sua corte no maior centro de estudos esotéricos da Europa em fins do século XVI e início do século XVII. Entre muitos sopradores que por lá passaram, conviveram também vários sábios de renome como os ingleses Jonh Dee, sábio matemático e cabalista, que foi conselheiro da Rainha Elisabeth I e Edward Kelley, filósofo hermético e vidente inglês que alcançou grande renome no Renascimento por seus trabalhos no campo da filosofia oculta. Em Praga, ainda hoje, os laboratórios alquímicos preservados constituem uma atração muito visitada pelos turistas que demandam a atual capital da República Tcheca.
Do operativo para o especulativo
Foram esses “chat-qui-pelote”, vigaristas da arte espagirica que trouxeram descrédito à alquimia. Isso, sem contar as novas ideias que o Iluminismo estava implantando na sociedade intelectualizada da Europa, especialmente aquela oriunda do expansionismo colonial, centrado especialmente no alargamento do Império Inglês, que se espalhava pelo mundo como um verdadeiro monstro devorador de nacionalidades e recursos naturais. Esse juggernaut, que utilizava principalmente as ferramentas de um capitalismo predador para se instalar e prosperar nas colônias, não tinha, evidentemente, qualquer simpatia por uma técnica, por mais duvidosa que fosse, que pudesse fabricar ouro, pois isso significaria um perigo mortal para a estabilização monetária de um sistema que precisava controlar a circulação do lastro monetário, na época centrada no padrão ouro, para poder sobreviver. Daí, se a possibilidade de fabricar ouro fosse verdadeira, a economia mundial, que a Inglaterra passou a controlar a partir de meados do século XVIII, simplesmente desmoronaria.
Nesse passo, a alquimia, com finalidade de transmutação de metais preciosos passou a ser proibida em muitos países, e seus praticantes, se apanhados nessa prática, acabavam na prisão, quando não perdiam as próprias vidas.
Embora não haja provas da veracidade dessas informações, consta que os reis Henrique IV e Henrique VI estiveram envolvidos com essa questão em seus respectivos reinados. O Quarto Henrique teria proibido a prática da alquimia na Inglaterra e o Sexto a teria reintroduzido para sanar suas dificuldades financeiras. Leis que determinam a utilização de uma certa porcentagem de ouro alquímico nas moedas da época foram aprovadas no seu governo. Embora a maioria dos historiadores desconfiem que se tratava de ouro falso, obtido através de banhos de tinta dourada, ainda se podem ver moedas, supostamente cunhadas com ouro alquímico em vários museus da Europa, assim como esses estatutos legais, que foram preservados para a história desses tempos bizarros e assaz excitantes para qualquer espirito especulativo.
A importância da alquimia como técnica para a fabricação do ouro caiu em completo desuso com a impressão do papel-moeda. É atribuído ao economista escocês John Law a ideia de sugerir ao governo de Luiz XIV, no início do século XVIII, a fabricação de papel-moeda sem lastro em ouro para pagar as imensas dívidas que ele contraiu com a sua suntuosa corte e suas intermináveis guerras de conquista. A ideia pegou e a maioria dos países passou a adotar a prática, criando o chamado endividamento público que hoje conhecemos e que nunca é devidamente saldado pelos governos no mundo inteiro.
Destarte, pode-se dizer que quem determinou a morte definitiva da alquimia operacional foi o capitalismo. Depois da substituição do ouro circulante pelo papel-moeda sem obrigação de lastro em metal precioso, a alquimia deixou os laboratórios dos práticos da Ars Magna para se refugiar em nichos de seletos pensadores e praticantes de uma filosofia que buscava a realização de um estado de espírito que as religiões prometiam sem conseguir cumprir. Nasceu, dessa forma, um novo tipo de alquimia, dita especulativa, que adaptou os ensinamentos herméticos, cabalistas e gnósticos à um sistema de pensar e viver, que na sua liturgia integrava, não só o simbolismo exotérico da prática alquímica (centrado na realização material da transmutação de metais comuns em ouro), como também o simbolismo esotérico desse metier, que era o verdadeiro sentido dela, ou seja o aprimoramento espiritual do seu praticante.

O alquimista medieval, bem como os dos primeiros séculos da Era Cristã, trabalhava com a matéria na esperança de que ela lhes revelasse o segredo da sua intimidade atômica, pois nela ele acreditava estar presa a sua alma. Na manipulação da alma do metal estava o segredo da sua transmutação. Essa disposição ainda é encontrada nos adeptos da época da Renascença, que se inspiraram nos antigos discípulos de Hermes Trismegisto para praticar a sua arte. Pode ser recenseada nos trabalhos de Paracelso, Von Hermont, Philalethes, Jonh Dee, Roger Bacon, Robert Fludd, os alquimistas da Rosa Cruz e outros, que viam no simbolismo do Vitriol, a realização da sublimação espiritual acontecendo concomitante à sublimação do seu Mercúrio (a elevação do seu espirito a um nível superior).
Mas depois do declínio da alquimia em sua face operativa, quando ela deixou de interessar aos poderosos como meio de adquirir riqueza, os novos praticantes da Obra transferiram as operações de laboratório para os salões da nobreza enfastiada e dos saraus filosóficos, onde a prática tornou-se exercício de especulação metafísica.
Isso, de certo não deve ter agradado a uma classe de intelectuais e cientistas que viam na Arte de Hermes uma verdadeira escada de ascensão ao conhecimento espiritual e não se conformava em vê-la desperdiçada em saraus de conversas bizantinas. Eles entendiam que nas propostas das artes especulativas, como a alquimia, a arquitetura clássica e medieval, as crenças gnósticas e as antigas iniciações, estava contido todo um glossário de sabedoria que os antigos taumaturgos e filósofos haviam nos deixado e estava sendo aviltado por cortesãos vazios e fúteis que faziam que faziam de uma arte digna do maior respeito apenas uma "salat e banalités" (tertúlia de banalidades).
Do físico para o psíquico
Como diz Jung, mal sabiam os filósofos gnósticos e os hermetistas que, na verdade, suas crenças e práticas descortinavam para o mundo da consciência um universo que até então, embora fosse determinante para a formação da nossa personalidade, permanecia oculto e inviolado dentro do inconsciente coletivo da humanidade.
Esse universo, que ele chamou de Inconsciente Coletivo e Platão designou como mundo ideal, ou mundo das ideias, é o que podemos chamar de estofo da nossa personalidade. O significado do termo arquétipo, para Jung, é o de um tipo impresso na semente da nossa existência, que podemos chamar de alma. Ele vem conosco já no dia do nosso nascimento. Isso quer dizer que não nascemos “tabula rasa”, a folha em branco em que tudo pode ser escrito, como dizia o iluminista Jonh Locke, mas sim que já desembarcamos no mundo com uma camada psíquica de tipos impressos que darão conformidade à boa parte do que seremos na vida.
Teillhard de Chardin, o sábio jesuíta que se ocupou desse tema (O Fenômeno Humano, 1954) associou esse mundo arquetípico à existência de uma camada sutil de pensamento que aureola a terra e fornece aos seres humanos a matéria prima para o seu psiquismo, por ele chamada de Noosfera. Desse arsenal viriam as nossas intuições, as premonições, as grandes descobertas e tudo o mais que o intelecto humano é capaz de pressentir, inclusive o nosso sentimento religioso, centrado na ideia ancestral de que, quer acreditemos ou não, todos temos a noção de que existe um poder maior que determina, em grande parte, a nossa vida sobre a terra. Por isso é que Jung diz: "Até que você torne o seu inconsciente consciente, ele vai dirigir sua vida e você o chamará de destino."
Daí a imensa importância desse conhecimento essencial para que o homem possa, de fato, realizar o seu aprimoramento espiritual, e nele inclui-se, como matéria substantiva, as propostas das religiões. A esse aprimoramento, que Jung chama de Individuação, é preciso integrar todos os estudos que se referem à nosso estofo espiritual, que constitui a totalidade da nossa psique, seja ela o que for. E sejam esses estudos, epistêmicos como as pesquisas efetuadas pela física quântica, as investigações feitas pelas ciências que se dedicam à psique, como a neurociência e a psicologia, é preciso estudar também a filosofia, especialmente no que tange aos estudos teosóficos.
Estes, principalmente, estão no cerne do problema do mundo em que vivemos. Isso porque as neuroses do homem moderno não podem ser descoladas no arsenal arquetípico que ele carrega no seu inconsciente. O material simbólico que ele projeta na nossa vida cotidiana não é difícil de identificar nos mais diversos complexos que moldam nosso comportamento. Qualquer bom terapeuta consegue fazê-lo Eles estão na raiz da nossa psicótica procura por beleza, poder, riqueza, reconhecimento social e outras formas de satisfação neurológica, que no mais das vezes, acabamos descobrindo, só no fim da vida, quando não há mais tempo de consertar a miopia, que era tudo uma ilusão dos sentidos, projetada pela sombra de um arquétipo ao qual nós não fizemos questão de ser apresentados.
A proposta da Maçonaria
É nesse passo que entra a Maçonaria chamada Especulativa. Se antes, com a prática operativa da alquimia e da arquitetura se procurava aprimorar o espírito através da manipulação da matéria e das formas, agora tratava-se de percorrer o caminho inverso, cinzelando o próprio espirito com ferramentas da filosofia hermética, aplicada a uma nova moral social para a formação de uma sociedade justa e perfeita.
Tais foram as propostas das inúmeras utopias escritas por filósofos hermetistas da época. Não mais o reino do espírito conquistado através da manipulação da matéria, mas a conquista da matéria através da manipulação do espirito. A consequência filosófica dessa cisão foi o surgimento do Iluminismo e as suas propostas de reformas sociais. E com ele o Positivismo que passou a dominar a mente ocidental com o seu anelo pelo lógico e pelo provável.
Se o domínio da mente pela lógica e pela evidência demonstrável trouxe todo o progresso material de que a sociedade moderna se ufana, ele também empurrou para um território de sombras todo o substrato inconsciente que está no estofo da alma humana. E com isso vieram as neuroses da vida moderna, escondidas nos complexos que antes as chamadas ciências ocultas expunham nos dogmas das religiões, nas crenças e práticas dos xamãs e curandeiros, nos conjuros do exorcista, nos bruxedos e principalmente no arsenal obscuro dos filósofos gnósticos e hermetistas.
Se a química moderna sepultou a busca do espírito através da manipulação da matéria, que se hospedava na antiga prática dos Filhos de Hermes, a alquimia especulativa inaugurada pelos filósofos da transmutação espiritual criou uma nova fórmula de Ars Magna regenerativa que passou a ser praticada na Lojas dos Irmãos, ao invés de um laboratório.
É nesse sentido que os maçons que adotaram a antiga prática dos Adeptos da arte hermética deram vida à Fraternidade que hoje conhecemos como Maçonaria. Por isso é que nos ritos maçônicos qualquer Irmão que pelo menos tenha lido alguma coisa sobre alquimia irá de pronto identificar de que estofo foram tirados as principais alegorias da sua Arte, porque ela está umbilicalmente ligada a três ramos arquetípicos da cultura antiga e medieva, em especial, a alquimia, o gnosticismo e a arquitetura.
A razão de a Irmandade dos Obreiros da Arte Real, como é chamada a Maçonaria, ter adotada essa trindade cultural para sedimentar o seu processo de individuação, se deve principalmente ao fato de elas, de per si, estarem ligadas por laços comuns de parentesco arquetípico, como bem mostram Hubert Silverer (O Problema da Mística e seu Simbolismo) e principalmente Fulcanelli, em seus instigantes trabalhos “O Mistério das Catedrais e as Moradas dos Filósofos.
Esse é o tema que iremos desenvolver neste ensaio. Os maçons e os interessados em assuntos dessa natureza irão encontrar aqui um repertório dessas tradições milenares que vem modelando a nossa psique desde a primeira mordida que o homem deu no fruto do conhecimento e fez a sua primeira reflexão. Como, desde esse dia toda a sua intensa busca pelo Si Mesmo é o principal anelo da sua alma, resolvemos dar a nossa contribuição para esse espinhoso tema.
Nós o expomos para fins de especulação e debate e não como fonte de doutrina. Aos que nos fizerem a honra de uma visita, a nossa gratidão e que o Grande Arquiteto do Universo o tenha em alta conta.