APRESENTAÇÃO
Quem quiser, de fato, entender o que é a maçonaria, não pode deixar de fora as obras de Karl Gustav Jung e Fulcanelli. Do primeiro, o iniciado maçom irá entender o sentido profundamente espiritualista que os irmãos que desenvolveram a forma especulativa da Ordem estavam buscando quando nela introduziram os ensinamentos das disciplinas ditas esotéricas, entendendo que uma arte como a maçonaria, que visa o aprimoramento espiritual dos seus praticantes, não poderia se valer unicamente da liturgia das religiões ortodoxas.
Do segundo, o porquê de a maçonaria ter escudado a simbologia da sua arte na profissão do arquiteto, fazendo da própria divindade um arquétipo representativo dessa ocupação.
Tudo é baseado numa lógica axiomática. Na simbologia da construção de um mundo coeso e uno, como se propõe no magistério maçônico, é preciso uma mente que lhe dê forma e conteúdo. Essa mente é semelhante à de um arquiteto que desenha o plano do edifício e define todas as condições e finalidade da edificação. Platão chamou essa mente de Tecton, de onde vem a inspiração maçônica de chamar o Criador de Grande Arquiteto do Universo.
Essa é uma visão platônica e gnóstica, mas pode ser transposta para uma noção moderna, que hoje constitui objeto de estudos científicos bastante avançados, feitos nos laboratórios de física atômica. E esses estudos têm mostrado que os antigos taumaturgos que pensavam um mundo saindo de um corpúsculo minúsculo, carregado de energia, e ia adquirindo forma e consistência como se fosse um edifício construído por mãos humanas, tinham razão.
De fato, se fizermos um pequeno exercício de imaginação poderemos figurar o universo saindo da Mente Criativa do seu idealizador em ondas e partículas dispersas e com diferentes “quantidades” de energia segregadas em seus corpos. Nesse sentido, veríamos o Átomo Primordial (o ovo cósmico dos gnósticos e dos antigos sacerdotes egípcios), como uma espécie de cornucópia que expele, eternamente, chispas de energia que são lançadas num espaço infinito, que vai se alargando exatamente pela pressão que essas “centelhas” exercem ao preencher esse vazio. E por efeito das combinações que são feitas entre elas, a matéria universal vai sendo formada. [1]
Essa cornucópia tem até um nome: Big Bang. E se não fosse uma ousadia que supera a nossa capacidade dialética, poderíamos dizer também que esse evento, que os astrônomos estimam ter acontecido há cerca de quinze bilhões de anos atrás, é a prova científica da existência de Deus.
Nessa esteira de pensamento vamos encontrar a razão da nossa própria existência. Isso porque, segundo esse raciocínio, nossas almas seriam também “centelhas” de energia que foram expulsas do núcleo do Átomo Primordial e se espalharam pelo nada cósmico, combinando, umas com as outras, para formar a matéria universal.
Essa, aliás, é a ideia que está no cerne da maioria das doutrinas espiritualistas: a de que a nossa alma é uma centelha de luz capturada pela matéria, ou contrário senso, que capturou matéria, se quisermos fazer uma aproximação analógica dela com as teses defendidas pelos atomistas e principalmente na teoria das mônadas, que encontramos na filosofia de Leibniz.[2]
Invocamos essas manifestações para tentar justificar aos leitores o porquê de termos reunido, nesta apresentação do nosso ensaio, o pensamento de um médico suíço, fundador da escola de Psicologia Analítica, com um suposto alquimista, especializado em simbologia ligada à construção.
É porque achamos que ambos estão tratando da mesma matéria. A esse assunto, Jung deu o nome de Processo de Individuação, que no fundo é uma formulação de caráter psicológico que se destina a refinar a matéria sutil que se encontra na nossa mente mais profunda, para, a partir desse substrato, encontrar o que ele chama de Si Mesmo, ou seja, o equilíbrio total da nossa personalidade. Já Fulcanelli trabalha o mesmo conceito, valendo-se, todavia, do simbolismo da construção. Em ambos, o que se trata é do aprimoramento espiritual do indivíduo através da prática de uma arte, ou profissão, no caso. o alquimista com suas lidas em um laboratório para fazer transmutação de metais comuns em metais preciosos, e o arquiteto/construtor no seu trabalho de dar formas e vida aos edifícios.
A liga que une os dois pesquisadores é a alquimia. O que ressalta no trabalho de ambos é uma ideia de que a arte dos Filhos de Hermes é uma espécie de prática religiosa que tem por fim a busca de um estado superior de consciência que só pode ser alcançado através de uma experiência numinosa, que transcenda a realidade física. Para o alquimista tratava-se de “libertar” a sua própria alma dos grilhões onde a matéria a aprisiona, através da manipulação da própria matéria; para o psicólogo trata-se de conhecer a si mesmo, na melhor tradição socrática, o que significa descer a fundo em suas raízes psíquicas para se tornar um todo, material e espiritualmente.
Em ambos os casos, o que se busca é o perfeito equilíbrio da nossa vida psíquica. Jung trabalha com as ferramentas desenvolvidas pela psicologia para “libertar” o conteúdo inconsciente que a nossa mente abriga. Entende ele que essa libertação é necessária para que o indivíduo encontre o necessário equilíbrio mental para viver uma vida plena e isenta de neuroses, preconceitos, esquizofrenias e outros transtornos que geram comorbidades psíquicas. Por isso ele diz que enquanto não trouxemos para a consciência os conteúdos do nosso inconsciente, ele dirigirá a nossa vida e nós o chamaremos de sorte, azar, destino, etc. Quer dizer, ficaremos sujeitos a um senhor desconhecido que pode ser tanto um bom amigo quanto um cruel tirano.
Destarte, a função da psicologia é ajudar o indivíduo a fazer a “travessia do espelho” da sua psique, trazendo para os limites da razão as projeções inconscientes de um mundo caótico, de conteúdo muitas vezes bizarro e obscuro, que, no entanto, acaba por ser responsável por boa parte da nossa vida psíquica.
Jung trabalha com os símbolos da alquimia, da religião e da ciência hermética para mostrar o quanto a nossa mente está impregnada de padrões universais de pensamento, imagens e formulações abstratas, que formam uma espécie de “alma universal”, por ele chamado de Inconsciente Coletivo da Humanidade. Desse arsenal de “tipos psíquicos”, o espírito humano se vale, segundo ele, para formatar suas crenças, valores, critérios de julgamento e principalmente, as formulações mais profundas que estão na base da nossa psique.
Destarte, ele via no processo pelo qual o alquimista trabalhava em seu laboratório para decantar um mineral de suas impurezas, uma forma operativa de realizar, no seu próprio psiquismo, uma purificação que o levaria a um êxtase espiritual semelhante ao que se poderia alcançar na prática sensitiva de uma religião. Por isso as operações praticadas nos laboratórios dos Adeptos constituíam, na verdade, uma espécie de “missa química”, na qual, à medida em que a matéria prima ia sofrendo modificações por efeito do fogo e das manipulações operativas, também o próprio espírito do operador se modificava, encaminhando-o para a esperada iluminação espiritual.
Dá-se o mesmo com o ofício do construtor. Como bem assinala Jean Palou [3], a arte de construção, desde os tempos mais remotos da história da civilização esteve ligada às estruturas mais profundas da nossa vida anímica, tanto que suas primeiras manifestações se deram principalmente no campo da religião. Antes de construir palácios e fortalezas para o deleite do seu poder e a segurança das suas conquistas, os homens construíram templos para seus deuses e tumbas para servir de moradias eternas para seus próprios corpos.
Construir, pois, sempre teve esse caráter de transcendência que anima toda disciplina de fundo espiritualista. Por isso Fulcanelli fala de um magistério, que “mutatis mutandi”, estaria todo contido no colosso dos edifícios sacros e profanos produzidos pelos maçons medievais, mostrando que o trabalho do construtor, profano em si mesmo, no entanto, agasalha um processo sagrado de elevação da consciência semelhante ao produzido pela prática da alquimia, e por análogas consequências, o de uma experiência religiosa capaz de levar o seu praticante ao êxtase espiritual.
Esse processo, na psicologia junguiana, é o encontro do indivíduo com ele próprio. É uma jornada psicológica de autodescoberta, onde o homem integra os aspectos conscientes e inconscientes da sua mente para se tornar um ser único, autêntico e completo, onde o bem e o mal, polos da relação arquetípica que alimenta a nossa vida psíquica, tornam-se padrões de equilíbrio para a nossa razão e não comorbidades que a prejudicam.
Fulcanelli, da mesma forma que Jung, via a arte do alquimista como uma espécie de processo (uma química espiritualista) que permitia o vislumbre da divindade contida na alma humana, através da manipulação da matéria prima. Em ambos os casos, sua prática proporcionava uma verdadeira ascese para o espírito do operador. “Com efeito,” escreve ele, “é no crisol que a matéria prima, como o próprio Cristo, sofre a Paixão; é no crisol que ela morre, para ressuscitar em seguida, purificada, espiritualizada, já transformada.”[4]
Por seu lado, Jung diz que “na linguagem hermenêutica dos Padres, a Igreja possui um tesouro de analogias com os produtos individuais espontâneos que encontramos na psicologia. Aquilo que o inconsciente expressa não é arbitrário, nem corresponde a uma opinião, mas ocorre pelo fato de ser assim mesmo, como em qualquer processo natural. É óbvio que as expressões do inconsciente são naturais e não formuladas dogmaticamente, como as alegorias patrísticas, as quais atraem a totalidade da natureza para a órbita das suas amplificações. Se estas produzem surpreendentes alegorias “ad Christum espectat”,(se refere a Cristo), o mesmo acontece no que se refere à psicologia do inconsciente.”[5]
Quer nos parecer que não há entre os dois pensamentos expressos acima nenhuma antinomia que possa ser invocada para contaminar o seu conteúdo analógico. Ambos se referem ao que Jung chama de Processo de Individuação, e ele é relativo á toda disciplina que se relaciona com a personalidade sutil do ser humano, que para o místico, o religioso, é a sua parte anímica, e para o psicólogo, o cientista, é a sua psique.
Nas grandes catedrais da Europa Fulcanelli viu esse processo esculpido nas pedras, nos arcobotantes, nas gárgulas e tarrascas que decoram os frontispícios das catedrais medievais. E nos meandros das suas complicadas linhas geométricas, para ele, estava todo o magistério alquímico gravado para a posteridade, como a mostrar que a catedral gótica era, na verdade, um verdadeiro mapa da alma humana, traçado à duas mãos, pelo alquimista e pelo maçom construtor.
Ambos em busca de um mesmo resultado que era a plenitude espiritual, que a alquimia chamava de a Grande Obra, ou Pedra Filosofal, e Jung de Individuação.
E é justamente na intercessão dessas vertentes que a maçonaria se insere e centra a busca do seu tesouro espiritual. Neste ensaio procuraremos abordar o magistério maçônico sobre a ótica da psicologia analítica junguiana, com enfoque na alquimia e no simbolismo da arquitetura, por entendermos ser a Arte de Hermes e a profissão de Vitruvius os principais fundamentos da filosofia espiritualista que encontramos na prática da Arte Real.
Nesse trajeto teremos que passar pelos territórios da Cabala, da Gnose, das filosofias orientais e principalmente pelo vasto país dos mitos e das criaturas que povoam o inconsciente coletivo da humanidade, pois deles todos nos vêm a arquetipia que dá estofo à nossa vida psíquica.
Aos Irmãos que tiverem pernas e paciência para nos seguir nesse caminho, as nossas boas vindas e a nossa antecipada gratidão.

[1] O modelo que mostra o universo saindo da explosão inicial do Big Bang na forma de um chifre ou cornucópia, é atribuído à físicos alemães da Universidade de Ulm. Esse modelo, conhecido como Topologia de Picard,ou "topologia de chifre, foi proposta em 2004 por uma equipe de físicos alemães liderada por Frank Steiner.Foto: Uol Mundo da Educação
[2] Mônada é um conceito desenvolvido pelo filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 —1716). Segundo esse filósofo, o universo real seria composto por mônadas, uma substância simples e pura na sua essência, e que na interação entre elas vai formando os compostos.
[3] A Maçonaria Simbólica e Iniciática .
[4] O Mistério das Catedrais, pg. 60
[5] Psicologia e Alquimia, pg 29