APRESENTAÇÃO
A proposição de que os “limites do mundo são o limite da nossa linguagem” não é só uma frase, mas uma realidade provável e esmagadora do quanto a nossa percepção da realidade é limitada. Essa frase foi cunhada pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889―19510 e publicada em seu livro Tractatus Lógico-Philosophicus de 1921.
A expressão sugere que nossa compreensão da realidade é limitada pela capacidade de traduzir para a nossa mente, numa linguagem que ela seja capaz de entender, tudo aquilo que vemos, ouvimos e sentimos. Isso porque a linguagem não é apenas uma ferramenta que nos permite a comunicação, mas também conforma o pensamento, limitando ou expandindo, conforme seja a nossa capacidade para expressá-lo.
Destarte, a nossa compreensão do mundo aumenta ou diminui na mesma medida que a nossa capacidade de expressar essa compreensão se expande ou contrai. O que Wittgenstein disse também foi expresso pelo cientista e filósofo polonês Alfred Korzibsky (1933-1994) em suas pesquisas sobre a influência que a linguagem exerce sobre a estrutura da nossa psique e a forma como ela limita a nossa compreensão da realidade. Isso porque todas as informações que os nossos sentidos fornecem para o cérebro são feitas através da linguagem que usamos (verbal e não verbal) para nos comunicarmos. E se esta for pobre, pobre também serão as ideias que delas faremos e a compreensão que delas teremos. Por isso, diz Korzibsky: “o mapa não é o território”, com isso querendo dizer que dentro de cada ideia, em cada conceito que emitimos, em cada gesto que fazemos, cada comportamento, cada informação que damos ou recebemos, há um mundo muito maior do que aquele que a nossa mente consegue representar e comunicar.
A questão da linguagem é o maior problema quando se trata de assuntos que são mais adstritos ao mundo espiritual do que ao material. Por isso, eles se classificam como metafísicos, o que quer dizer que estão além do ambiente físico em que nos movimentamos, que é o mesmo que dizer que suas raízes estão plantadas em dimensões que a nossa consciência, num estado normal de atenção e vigília, não alcança.
Todos sabemos, ou pelo menos sentimos, que não vivemos apenas num território de materialidades manifestas. A nossa sensibilidade “pressente”, e não raras vezes até mesmo sente, a existência de uma realidade que a nossa mente consciente não alcança, mas que projeta sua influência sobre nós de maneira inconteste. Sonhos, premonições, coincidências significativas e até fenômenos que atribuímos à sorte ou azar, ou à intervenções de forças sobrenaturais, estão nesse catálogo de energias desconhecidas que se escondem na parte mais profunda da nossa mente. Jung chamou a essas forças de Mundo dos Arquétipos, e o território onde eles habitam de Inconsciente Coletivo. Sua inspiração veio da filosofia de Platão, que entendia ser o mundo construído a partir de conceitos universais, oriundos do pensamento dos deuses, que seriam projetados na mente das pessoas e transformados em realidades aparentes. Jung aproveitou esse conceito e o ampliou, trazendo-o para o terreno da pesquisa científica, mostrando que a qualidade de pensar, que distingue o ser humano das demais espécies animais é algo que transcende a biologia e invade um território que está além da nossa própria consciência. Tanto é, diz ele, que o pensamento não acontece conscientemente, como atividade inerente do nosso cérebro. Ele simplesmente ocorre. A consciência seleciona, organiza, valora e julga, mas não o gera. Por isso é impossível “não pensar”, diz ele, mesmo quando estamos dormindo, porque os sonhos também são produtos psíquicos que se classificam na categoria pensamento. Por isso é que os nossos sonhos são, no mais das vezes incompreensíveis e tão bizarros que não conseguimos entendê-los. É porque a nossa consciência não tem linguagem suficiente para realizar essa interpretação. E assim eles são apresentados à consciência como se fossem filmes abstratos cujos significados só podem ser traduzidos por quem domina a linguagem do inconsciente.
Quanto mais sensitiva é uma pessoa, mais a sua mente está conexa com o mundo dos arquétipos de que fala Jung, ou espiritual como querem os místicos. O problema é que a sensibilidade de uma pessoa não é proporcional à sua capacidade de linguagem. Se fosse, poderíamos comparar Einstein com Nostradamus e Jung com qualquer xamã de tribos americanas ou africanas sem qualquer temor de estamos desqualificando uns e elevando outros. Na verdade, o que distingue uns dos outros é a forma como cada um desses personagens “explora” o conteúdo inconsciente que cada um tem dentro da sua mente e deles extrai um resultado para a sua vida prática. Se Nostradamus voltava de suas “viagens” anímicas com premonições de acontecimentos ainda por ocorrer, Einstein, Newton, Galileu e outras mentalidades da ciência universal e da filosofia voltavam com intuições sobre o funcionamento das leis físicas e psíquicas que regem o comportamento da energia que formata o universo e faz com ele seja o que é. Da mesma forma que o Xamã, o Pai de Santo, o taumaturgo, o médium espírita ou qualquer outro tipo de mistagogo trabalha com os arquétipos que ele elicia no seu Inconsciente também os cientistas o fazem. E é através do inconsciente do cientista, ou do filósofo, que, acidental ou incidentemente, forma-se uma “ponte” entre o mundo arquetípico das formas ideais (como dizia Platão) e o mundo real e por ela a sabedoria humana entra na realidade manifesta.
Não é outra coisa o que faz o terapeuta na sua lida diária para entender e diagnosticar as mais diversas moléstias que assombram a vida das pessoas nas sociedades modernas. A prática terapêutica é uma incursão pelos meandros mais profundos da mente do paciente para identificar os “tipos” psicológicos que estão na base dos seus constrangimentos psíquicos. Por isso, como bem assinala Jung, quanto mais primitiva é a civilização, mais influenciada pelo inconsciente ela é. Daí o glossário de superstições, mitos, arquétipos e crendices ancestrais que estão no âmago da sua estrutura psíquica. Nelas, o mágico e o transcendente afloram com mais força e fluidez do que nas chamadas “civilizações científicas”. Mas, mesmo as chamadas sociedades científicas, que se ufanam de ter enterrado as superstições, as crendices, os fados, os arroubos de imaginação que assombravam a vida medieval, não estão livres dessa “fauna psíquica” que constitui o Inconsciente Coletivo da Humanidade. Algumas espécies podem ter sido extintas, ou desidratadas em sua energia, mas o mundo onde elas vivem e refletem o seu poder sobre nossas mentes está, diríamos, inteiramente preservado. As “criaturas desse mundo” mudaram de nome, mas estão vivas. À maioria deles nós chamamos de deuses, mitos, heróis, mocinhos, guias, mentores, etc. e à influencia que eles projetam em nós de complexos.
Complexo é um termo da psicologia moderna, mas tudo, como se vê, é apenas questão de linguagem. A consciência do cientista, quando quer expressar a sua sabedoria usa uma linguagem figurada composta por números, diagramas, gráficos e termos técnicos deduzidos das suas pesquisas e das relações que o fenômeno pesquisado tem com alguma realidade já catalogada e por ele conhecida. Por isso é tão difícil ao cientista, com a sua mente racional e positivista, aceitar a existência do mundo espiritual e de outras realidades metafísicas que ele não consegue medir nem captar nos aparelhos do seu laboratório. O que não pode ser medido, o que não pode ser imaginado, o que não pode ganhar contornos físicos no mundo das realidades manifestas, não existe.
Esse tem sido o grande tormento dos pesquisadores que se aventuraram pelo mundo da mecânica quântica, do inconsciente, da espiritualidade e da paranormalidade. Os resultados obtidos com a pesquisa da mecânica quântica estão aí para provar que esse estranho mundo que serve de estofo para o universo físico é um fato que não pode ser negado,, mas quando se trata de explicar como isso se dá, surge o problema. A linguagem até agora desenvolvida pelo ser humano não está altura do fenômeno detectado.
Smartfones, viagens espaciais, computadores, microprocessadores, lasers e outros implementos de alta tecnologia são alguns desses resultados, mas as bizarrices do comportamento que a energia apresenta, quando vista em sua estrutura mais íntima, ainda assombram muitos pesquisadores que não conseguem admitir que estão batendo nas portas de um mundo ao qual eles, até agora, negaram a existência.[1]
Por outro lado, exploradores mais ousados como Karl Gustav Jung, que ousou descolar o estudo da mente humana das suas raízes cartesianas e positivistas, ainda hoje causam desconfiança em muitos profissionais da área, da mesma forma que Joseph Banks Rhine (1895 —1980), botânico americano, ousado pesquisador dos fenômenos paranormais relacionados com a mente humana, criador da parapsicologia, nunca conseguiu fazer suas pesquisas serem reconhecidas pela comunidade científica.
Esse é o grande problema do chamado conhecimento oculto. O que a consciência não consegue determinar, face à insuficiência da linguagem que a espécie humana ainda sofre, o inconsciente registra; e quando precisa revelar, ele o faz na forma de símbolos, imagens, neuroses, sonhos e comportamentos estranhos, catalogados, muitas vezes, como esquizofrênicos ou psicóticos, mas que, na verdade, são apenas respostas inconscientes que não foram filtradas pela mente consciente do indivíduo.
Imagens falam mais do que palavras. Por isso os grandes mestres espirituais, em todos os tempos sempre transmitiram suas mensagens na forma de mandalas, metáforas, alegorias, analogias e outros recursos linguísticos que se comunicam melhor com o inconsciente do que as palavras, que é a linguagem que a nossa mente usa para codificar o conhecimento.
É nesse sentido que produções culturais que se utilizam de uma linguagem simbólica para transmitir suas mensagens, como o Taoísmo e a Cabalá, por exemplo, já foram taxadas por muitos críticos positivistas como simples arroubos mentais de pessoas com consciências alteradas. Nesse sentido eles classificam essas manifestações do espírito judeu, chinês e hindu no mesmo escaninho onde encontraríamos o surrealismo, o dadaísmo, o abstracionismo etc., bem como todos os tipos de arte que se dedicam a explorar o inconsciente humano.
Da mesma forma, em grau maior ou menor, todos os escritos sagrados poderiam ser classificados nesse rol. Nem a Bíblia hebraica, ou os escritos do Novo Testamento e as obras dos grandes santos da Igreja Católica e dos místicos de todas as tendências escapariam dessa classificação.
O que os positivistas não conseguem aceitar é o fato de que a psique humana tem suas raízes profundamente fincadas numa camada de energia está além da nossa consciência. E a dificuldade que temos para acessar essas camadas mais profundas da nossa mente resulta do fato de não temos linguagem suficiente para isso. Porque para entender e sentir essa presença ― e sentir é mais importante que entender ― é preciso ter um “coração espiritual” mais do que uma razão lógica.
Por isso os mestres espirituais de todos os tempos, cientes dessa dificuldade, preferiram colocar suas mensagens, ora numa linguagem simbólica, como é o caso dos escritos da Cabalá, do Taoísmo e dos livros sagrados da religião hindu. E mesmo a Bíblia Hebraica, a Bíblia Cristã e o Alcorão, que são sucedâneos das escrituras judaicas, se valem de uma linguagem metafórica para veicular os seus ensinamentos. Nesse mesmo escaninho encontraremos o Zend Avesta, livro que contém as pregações de profeta Zaratustra, que serviu de base espiritual da antiga religião persa.
Mas como sabemos, toda razão carrega um forte componente de idiossincrasia. Porque a nossa mente distorce, cancela ou generaliza boa parte das informações que os sentidos lhe mandam. Ela faz isso para amoldá-las ao conhecimento que já temos, para proteger a nossa saúde psíquica ou até para que a nossa mente se mantenha focada naquilo que mais nos interessa. E ao submetermos ao crivo da razão um escrito de natureza esotérica, hermética, carregada de misticismo, a tendência é sempre aplicar a ele um desses filtros conformadores, o que acaba nos dando um resultado muito pobre em termos de espiritualidade.
O presente trabalho faz uma incursão pelos labirintos da mente humana com a intenção de trazer para os Irmãos da Arte Real e outros interessados no tema um mínimo de compreensão desse mundo arquetípico que está na base da nossa vida psíquica. Nessa jornada pediremos a ajuda do psicólogo, psicanalista e filósofo Karl Gustav Jung para, como Beatriz fez com Dante pelos meandros do mundo inferior, nos guiar nessa jornada. No caminho passaremos pelas experiências anímicas consteladas pelos cabalistas e os filósofos gnósticos. Não faltarão também referências à filosofia oriental, especialmente o taoísmo e as manifestações espirituais do povo hindu, e por fim, as do espiritismo.
Este ensaio não busca transmitir doutrina nem procura convencer os Irmãos (ou qualquer leitor que nos der a honra ler este trabalho) das virtudes que a maçonaria possa ter como Processo de Individuação. Até porque, como disse Guimarães Rosa (Os Sertões- Vereda), mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende. Isso quer dizer que ninguém convence nem ensina quem não quer ser convencido ou aprender. Porque o verdadeiro magistério é aquele que se realiza no coração. Quer dizer, quando ele se interna na parte inconsciente da nossa mente e nós não julgamos os pensamentos e sentimentos que ele nos inspira.
O que se propõe aqui é exatamente isso: uma leitura com o coração. Porque o que uma pessoa pensa e fala é apenas o resultado da sua percepção particular. Mas o que ela sente é muito mais do que ela consegue entender. Nenhuma língua tem palavras suficientes para cobrir os significados que só o coração consegue abarcar. Que ninguém se preocupe em “se convencer,” pois como diz o Zhoar “ (...) cada homem só pode unir seu espírito ao espírito de sabedoria tanto quanto permite a vastidão do seu próprio espírito. E todo homem deve aprofundar seu próprio conhecimento de Deus tanto quanto lhe permita sua própria compreensão. Mas a Essência Divina deve permanecer um mistério profundo”.
Como bem salienta Jung, “quem perde sua crença no sobrenatural, mata a sua própria alma;" os ateus são pessoas que renunciaram à sua própria alma em troca de informações trabalhadas por uma narrativa construída, muitas vezes, ardilosamente, para convencer. Nós nunca nos libertaremos das nossas raízes transcendentais (arquetípicas) a não ser que queiramos pagar o preço de uma neurose, da mesma forma que nunca teremos um corpo infenso à dores, a não ser matando todo laivo de consciência que temos em nós. Mas não é isso que queremos. Mais que tudo, queremos vida. Vida plena e íntegra, onde matéria e espírito constituam um composto de forças que não se digladiam pelo controle da experiência existencial. Isso, em outras palavras, é o que Jung chamou de Processo de Individuação.
[1] O termo "estofo do universo" foi cunhado pelo filósofo Pierre Teilhard de Chardin e utilizado no livro “ O Fenômeno Humano” para designar à essência primordial que constitui a textura fundamental, ou base constitutiva de tudo o que existe no cosmos. Em outros termos, à energia que está na base de toda materialidade e também, segundo ele, do próprio mundo espiritual. Para Teilhard essa matéria primordial evolui de forma contínua de dentro para fora de si mesma, formatando as realidades materiais e de fora para dentro dando existência à vida psíquica. Essa energia hospeda duas propriedades fundamentais: a expansividade, que faz com que ela gere um universo cada vez maior em temos de espaço e a interiorização, que a leva a enrolar-se sobre si mesma, como num dínamo, resultando numa complexidade cada vez maior, que a faz passar da pré-vida para a vida, até alcançar o pensamento, a consciência humana e os fenômenos espirituais.