Que o cenário político brasileiro sempre foi uma baderna generalizada não é novidade para ninguém. Tenho 80 anos de idade e acompanho as idas e vindas dessa “Casa de Irene”, que como diz a velha canção italiana ,"C'è gente che viene, c'è gente che va”, cada um pegando o que pode e o resto deixando para os amigos levarem. Era ainda um garoto de curso primário mas lembro do Getúlio Vargas dando um tiro no próprio peito porque os adversários o haviam sitiado no Palácio do Catete para tomar os cofres públicos da mão dele. Diziam que o “baixinho” de São Borja já havia roubado demais e era hora de deixar um pouco para os outros. Depois dele as chaves dos cofres foram para as mãos de um político simpaticão que prometeu cinquenta anos de desenvolvimento em cinco. Até que conseguiu fazer alguma coisa, mudou a capital para o Centro Oeste tirando o poder das mãos dos capitalistas do café com leite, mas avançou tão pouco na sua proposta. Garantiu para ele um lugar na posteridade, ganhando até uma musiquinha do Juca Chaves que falava de um presidente bossa nova, que tocava violão, tomava café da manhã no Rio e voava para Brasília para almoçar. De certa forma ele deu uma reformada na nossa economia. Mas deixou para as próximas gerações um doença endêmica que nos deu mais de vinte anos de ditadura e uma inflação que levou muito anos para ser dominada.
Depois disso veio aquela zona com a renúncia do Jânio Quadros, o falso moralista que fechou as zonas e deixou os vaqueiros com saudade das currutelas, que não mais podiam ficar nas janelas acenando uma flor para os boiadeiros sedentos de uma recompensazinha para suas libidos tão castigadas nas longas viagens tocando vacas por esse imenso sertão brasileiro. Então elas foram para as esquinas rodar as suas bolsinhas, onde estão até hoje.
E depois veio o Jango, que era vice do Jânio. Parece que quando o povo elegeu o Jânio e o Jango (que lembra até uma dupla caipira, dessas que o estado de Goiás do Caiado gosta de produzir), ninguém se deu conta que o Jango era comunista e o próprio Jânio tinha uns vírus de socialista no seu sangue contaminado pelo álcool. Coisa paradoxal, porque ele gostava de uísque, e ao que sabe, comunista e socialista prefere vodka. Mas talvez tenha sido essa estranha composição etílica que acabou resultando naquela inaudita aventura que nos trouxe a Ditadura Militar. O povo votou em dois simpatizantes da esquerda, se esquecendo que quem manda no país, na verdade, é uma elite de direita que defende com unhas e dentes a sua estrutura capitalista e colonial, que não mudou com a independência, nem com a República, tanto que a nossa economia ainda está centrada na produção de comodities para exportação, como era na época da colônia, não deixou de ser com o império, nem mudou com a implantação da República. O que explica aliás, a simpatia de uma ala política que gostaria de ver o país virando um colônia americana, como a Venezuela virou, governada pelo Marco Rúbio orientado pelo Trump.
É claro que num ambiente desses, sempre se levantam dois lados. Quem está no poder parte e reparte para si e para os seus. E quem não está quer derrubar quem está para fazer exatamente o mesmo que o outro está fazendo. O mundo é maniqueísta, quer a gente queira ou não. Há um Deus que cria, e um Diabo que inventa. Há as forças que constroem e as que destroem. E nesse sentido há os donos do capital que investem dinheiro, talento e trabalho na confecção do produto social e querem, evidente, abocanhar a maior parte do resultado, porque se acham nesse direito. Não os criticamos nem condenamos por isso porque não se inventou, até hoje, um critério de aceitação unânime para medir esse direito. Por isso também não podemos condenar os comunistas, os socialistas, os sindicalistas, todos os “istas” que reivindicam para as classes sociais que tem apenas a sua força de trabalho, pedaços maiores do bolo dos resultados sociais. Essa é uma equação difícil de resolver e quem pensa que pode dar jeito nessas, que muitos chamam de injustiças sociais, na verdade só está cortando numa ponta para diminuir na outra. E com isso acirrando os conflitos cada vez mais.
É que estamos vendo agora. Duas facções disputam o poder. Uma, que está com a chave do cofre no momento, é oriunda de um pensamento socialista ultrapassado que nasceu no século dezenove em oposição ao capitalismo predador que a potências europeias espalharam pelo mundo. A outra, nasceu exatamente da reação que esses capitalistas encetaram para combater esse pensamento que negava a primazia do capital sobre o trabalho.
Nos dias de hoje, aqui entre nós, bolsonaristas encarnam uns e petistas encarnam os outros. O PT de Lula nasceu dos movimentos sindicalistas que se levantaram nos anos sessenta em clara oposição á revolução militar, que, diga-se a verdade, foi perpetrada pelos políticos de direita, que as venderam aos militares, a maioria oriunda da elites econômicas que dominavam a economia. Já as alas políticas que elegeram Bolsonaro como seu líder, são claramente os herdeiros da estrutura que apoiou o golpe militar de 1964, e certamente viram com bons olhos a tentativa do “Mito” em repeti-lo em 2022. Daí aquela baderna toda que se viu no 8 de janeiro de 2023. Uma reação histórica lógica e esperada.
Estou estudando o pensamento de Jung e cada vez concordo mais com ele. Parece que temos mesmo, dentro da nossa mente, uma estrutura formada de “tipos” psicológicos arquetípicos que conformam a nossa personalidade. E por mais que gostemos ou não do que esses “tipos” fazem conosco, não basta a nossa força de vontade para impedir ou fazer com que eles trabalhem sempre a nosso favor.
Nossa vida política atual – e queiramos não, a política sempre influi, para o bem ou para mal na nossa vida- está sendo moldada por dois arquétipos que desenvolveram noções contraditórias de como o homem deve pensar e fazer para ganhar a vida. Enquanto um lado adota o chamado “laissez faire, laissez aller, laissez passer, le monde va de lui-même" que quer dizer deixa fazer, deixa ir, deixa passar, que o mundo se constrói por si mesmo, como se houvesse uma mão invisível na natureza organizando tudo e a nós cabe não atrapalhar isso, o outro lado acha exatamente o contrário, que a natureza deu ao homem uma mente justamente para organizar o mundo e regular os processos que regem a vida social, evitando que a injustiça prevaleça.
A primeira ideia sedimenta o pensamento do liberalismo econômico que está no sangue das alas bolsonaristas e a segunda ideia é a que move o miolo dos petistas. Não dá para dizer quem está certo ou errado. Cada um vai fazer a sua opção pelo que sente na própria pele. Quem mete a mão no bolso e a trás cheia optará por um; se ela vem vazia, ou se acha que veio sem o que ele pensa que tem direito vai optar pelo outro.
E para que ninguém diga que eu só critico sem dar a minha opinião, vou dizer que não simpatizo nem com um nem com outro sistema de pensamento. Não acho que exista uma mão invisível guiando a atividade econômica e o destino da sociedade. Acredito que a mente humana deve sim, se ocupar dessa organização e buscar, cada vez com mais empenho, pontos de equilíbrio para evitar ao máximo, conflitos que possam romper o tecido social. Porque nesses conflitos, não perde quem os provoca, mas quem acaba, inocentemente, entrando neles induzidos pelas narrativas dos interessados. Para isso nós inventamos o Estado. Ele não deve tolher a iniciativa privada e precisa, ao invés, criar condições para que ela se expanda, com segurança e competência, principalmente naquelas atividades em que a ambição do capitalista não tem vontade de investir seu capital porque não vê a perspectiva do lucro.
O lucro é bom, porque impulsiona a mola da atividade econômica. A ambição é o motor das maiores realizações humanas e deve ter liberdade para ser exercida. Mas ela não pode ser deixada ao Deus dará. Até porque Deus não tem nada a ver com isso. Quando o homem escolheu comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, ele renunciou à orientação dele e passou a ser guiado pela sua própria cabeça. Deus virou um arquétipo, onde o bem e o mal justamente se revezam para orientar as ações humanas. É a nossa consciência que julga se estamos fazendo uma coisa ou outra. E como nós demos a nossa consciência para ser comandada por um sujeito chamado Ego, agora nós sempre achamos que estamos fazendo a coisa certa. E estamos. Para nós.
Dito isso, encerro com a minha opinião sobre o momento político que estamos vivendo. Acho que se o povo brasileiro quiser sair, pelo menos por enquanto, dessa prisão ideológica que os arquétipos Lula e Bolsonaro estão nos confinando, e colocando o país nessa encruzilhada de fétidos odores e infaustas previsões para o futuro, nós deveríamos aproveitar a próxima eleição para se livrar dos dois.
Só a interrupção dos fluxos dessas duas correntes contaminadas pelo radicalismo pode trazer um pouco de paz para o país. Porque, ganhe um ou outro, o conflito vai continuar. Ele já ultrapassou os limites da boa política e virou uma guerra de Egos e luta pelo poder, que está inclusive minando as próprias instituições. E a continuar assim vai nos conduzir a um ponto sem retorno onde, mais uma vez mais serão os inocentes úteis que se guiam mais pelas narrativas da rede social do que nos fatos que elas mascaram, que pagarão a conta. Isso porque os responsáveis moram em castelos inexpugnáveis, guardados pela ordem jurídica que eles mesmos votaram, as milícias que eles sustentam e os influenciadores que eles pagam nos enganar.