APRESENTAÇÃO
Nem os cientistas mais empedernidos conseguem, a vista dos avanços verificados no estudo da mecânica quântica, da psicologia analítica e da própria neurociência, defender uma origem exclusivamente materialista para a espécie humana.
Dos laboratórios de pesquisas sobre a origem da energia que está na essência da realidade manifesta, nos vêm a informação da grande perplexidade que ocorreu aos pesquisadores desse ramo da ciência quando descobriram que a energia que dá vida à matéria tem propriedades que não se encontram no mundo dito material, e que elas provém de uma dimensão que está além do campo de percepção da mente humana. E mais: que ela só se torna manifesta justamente pela intervenção da consciência do observador.
Na conjuntura levantada por essas constatações volta ao plenário das especulações acadêmicas a velha questão de saber se existe ou não um mundo espiritual, ou dito de outro modo, para atender a todas as imposições semânticas, se o material que sustenta a nossa vida psíquica tem suas origens fincadas em dimensões que estão além das nossa própria experiência existencial ou se ela tem sustentação apenas na nossa atividade neurológica, na qual se originaria todas as manifestações da nossa chamada vida anímica.
Neste trabalho nós nos propomos a enfrentar essa questão. Para tanto escolhemos dois objetos de estudo, que são a psicologia analítica, desenvolvida pelo psicólogo e psicanalista suíço Karl Gustav Jung e a maçonaria, no que tange à sua proposta espiritualista.
O escopo deste ensaio é mostrar que existe um importante paralelo entre as duas visões, a junguiana e a maçônica, que se vinculam numa forma de psicologia, que a maçonaria chama de Processo de Aprimoração Espiritual e Jung de Processo de Individuação.
Identificamos esse link nos estudos feitos por Jung com relação ao conteúdo psicológico que ele encontrou na mente dos pacientes que tratou e o levou a desenvolver a sua tese sobre a tipologia arquetípica que está na base do Inconsciente Coletivo da Humanidade e dá respaldo às crenças, valores, sensações, mitos, superstições, inspirações e outras manifestações que formatam a cultura humana e fornece, em grande parte, as motivações do indivíduo na sua vida cotidiana.
Por essa razão ele estudou profundamente as tradições religiosas e culturais dos povos antigos e civilizações primitivas que ainda hoje as cultivam, como a alquimia, as crenças gnósticas, o espiritismo, as tradições xamânicas, as religiões orientais, os chamados Mistérios iniciáticos antigos e as bases estruturais do próprio Cristianismo, com seus mitos e inspirações, juntamente com as práticas religiosas dos povos americanos, australianos e africanos.
Dessa extensa pesquisa sobre os conteúdos sutis da mente humana ele emergiu com o vasto cabedal de conhecimento de onde extraiu a sua crença de que as motivações que estão na base da vida psíquica dos seres humanos recebem influências mais fortes dos chamados arquétipos culturais que se hospedam na nossa mente inconsciente do que dos registros feitos pela nossa consciência durante a nossa experiência existencial.
Quanto ao motivo de termos vinculado o trabalho de Jung à tradição maçônica, chamou-nos a atenção o fato de ele ter considerado a jornada da vida humana sobre a terra como um Processo de Individuação, que lhe permitiu desenvolver um método de pensar e agir que tem como escopo a integração do indivíduo, em sua existência material, com o indivíduo em sua existência psíquica, que, em suma, é o objetivo da psicologia, e que a seu modo, toda tradição religiosa busca alcançar.
Não causará estranheza ao maçom iniciado na proposta teosófica da maçonaria, que os objetos dos estudos de Jung tenham uma grande repercussão no catecismo maçônico, principalmente nas alusões constantes que ele faz a temas alquímicos e gnósticos, associados a mística da arquitetura antiga e medieval, e principalmente aos chamados Mistérios praticados pelos povos antigos na sua crença de que, com esses rituais, poderiam estabelecer uma relação simbiótica com seus deuses para que eles atendessem às suas demandas.
A proposta deste trabalho é exatamente essa. Percorrer os meandros desses dois objetos de estudos para mostrar aos Irmãos e aos leitores interessados no tema, que tanto a psicologia analítica junguiana e a proposta espiritualista da maçonaria têm o mesmo objetivo: desenvolver para os que neles se inserem um Processo de Individuação. Este, na verdade, não é mais do que uma busca do equilíbrio interior que todo indivíduo precisa atingir para viver uma vida plena e isenta de constrangimentos psíquicos, que no mais das vezes, estão na raiz da maior parte dos males que afligem a sua vida física.
O que se consegue com isso é uma conquista individual. Mas ela se atinge com mais segurança quando o Irmão participa de uma egrégora. Por isso o Irmão que bate à porta de um templo está buscando realizar o seu próprio Processo de Individuação, razão pela qual ele precisa que se lhe dê....
Um lugar entre vós
−De que Oficina vem esse Poderoso Irmão,
Que as colunas da nossa Loja hoje enfeita?
−V.∙.M .∙.venho de uma Loja de São João,
Que como esta, também é justa e perfeita.
−Nela, qual o tipo de trabalho e de atitude
Vós tomais para construir o nosso edifício?
−V.∙. M.∙.nós levantamos templos à virtude
E aprendemos a cavar masmorras ao vício.
−Perfeito, Poderoso Irmão; que mais trazeis?
− A todos trago saúde, paz e prosperidade,
E meu V.∙.M.∙. vos saúda por três vezes três.
−Irmão, divide conosco a luz que o ilumina.
̶ Sê bem-vindo à egrégora desta Irmandade
E ocupai um lugar em nossa Augusta Oficina!
( introdução à obra "Vitriol- O processo de Individuação maçônico) - livro em construção