A vergonhosa seção de ontem no STF mostra bem o momento delicado em que estamos vivendo. É um momento em que parece que os principais atributos que informam a vida psíquica dos seres humanos estão sendo simplesmente desidratados pelo hedonismo exacerbado que tomou conta da nossas convicções mais profundas. Não dá para confiar mais em ninguém.
Nascemos com a ideia de que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Mas se a imagem de Deus é a que estamos vendo todo os dias na mídia, e principalmente se a associarmos às pessoas que nos governam e tomam decisões por nós, então ficamos pensando se não é melhor abandonar todas essas supostas verdades eternas, inclusive a crença na existência de Deus, porque se Deus se parece com elas, o que mais nos resta por esperança?
Tenho muita saudade do tempo em que eu nem sabia quem eram os Ministros do Supremo. E só tomei conhecimento dos nomes de alguns deles porque fui trabalhar no campo do direito, e vezes ou outra lia alguma súmula assinada por um deles. Aí me lembro do respeito que as pessoas delas me passavam. César Belluzo, Néri da Silveira, Nelson Jobim, Sepúlveda Pertence, somente para citar alguns, e principalmente as três mulheres que já envergaram aquela toga, Ellen Gracie, Rosa Weber e Carmem Lúcia.
Aliás, fiquei até constrangido em ver a Carmem Lúcia tentando caminhar com dignidade em meio àquele pântano de podridão e sordidez, numa Casa que deveria ser o alicerce da moral e da justiça que se acredita ser fundamental para o equilíbrio das instituições do país.
Mas ao invés disso, boa parte dos ministros que compõem o colegiado do STF aviltaram o direito, atropelaram a justiça e enterraram todo senso de moral e ética que um Supremo Tribunal, responsável pela última palavra no sistema jurídico do país, deveria ser o primeiro a preservar. O que se viu foi uma briga de rua onde cada um tomou a defesa de determinado grupo político, deixando mais que claro que eles estão ali, não para servir o país, mas sim, ao chefe que os indicou.
O STF hoje não passa de um partido político onde seus membros perderam toda noção de decoro que um Órgão como aquele deve manter. Claro, algumas exceções podem ser feitas. O Ministro Fachin, que sempre me pareceu uma pessoa proba e respeitável, parecia um cachorro que caiu de uma mudança. Foi atropelado por seus colegas que assumiram a defesa de Alexandre Morais, aliás, com a maior de cara de pau, sem o menor constrangimento. Já os aliados do Bolsonaro, especialmente o “terrivelmente evangélico” André Mendonça, que figura mais patética!
A crise do STF é resultado da polarização que tornou insalubre o ambiente político brasileiro. Por isso, ganhe quem ganhar as próximas eleições ela certamente continuará pelos próximos quatro anos. A toxicidade da Família Bolsonaro já contaminou boa parte das instituições e a podridão que sempre foi a marca registrada do PT já corroeu a outra parte dela. Enquanto o país não conseguir se livrar dessas duas pragas, a política brasileira continuará doente. Mas, infelizmente, parece que não será desta vez.