João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


 

Nem os cientistas mais empedernidos conseguem, a vista dos avanços atuais verificados no estudo da mecânica quântica, da psicologia analítica e da própria neurociência, defender com absoluta convicção uma origem exclusivamente materialista para a espécie humana. Dos laboratórios de pesquisas sobre a origem da energia que está na essência da realidade manifesta, nos vêm a informação da grande perplexidade que ocorreu aos pesquisadores desse ramo da ciência quando descobriram que a fonte que está na origem de toda a matéria universal, inclusive a vida, tem propriedades que não se encontram no mundo dito material e que ela provém de uma dimensão que está além do campo de percepção da mente humana. E mais: que ela só se torna manifesta justamente pela intervenção da consciência do observador.

Na conjuntura levantada por essas constatações volta ao plenário das especulações acadêmicas a velha questão de saber se existe ou não um mundo espiritual, ou dito de outro modo, se o substrato energético que sustenta a nossa vida psíquica tem suas origens fincadas em dimensões que estão além das nossa própria experiência existencial ― uma dimensão espiritual, para sermos mais explícitos ― ou se ele tem sustentação apenas na nossa atividade neurológica, que na sua interação com o ambiente originaria todas as manifestações da nossa chamada vida anímica.

Neste trabalho nós nos propomos a enfrentar essa questão. Para tanto escolhemos dois objetos de estudo, que são a psicologia analítica, desenvolvida pelo psicólogo e psicana-ista suíço Karl Gustav Jung e a Maçonaria, no que tange à sua proposta filosófica.  

O escopo deste ensaio é mostrar que existe um importante paralelo entre as duas visões, a junguiana e a maçônica, que se vinculam numa forma de psicologia, que a Maçonaria chama de processo de aprimoração espiritual (subir a Escada de Jacó) e Jung de Processo de Individuação (O Encontro do Si Mesmo).

Identificamos esse link nos estudos feitos por Jung com relação ao conteúdo simbólico que ele encontrou na mente dos pacientes que tratou e o levou a desenvolver a sua tese sobre a tipologia psicológica que está na base do Inconsciente Coletivo da Humanidade. Essa tipologia, alimentada por imagens arcaicas produzidas, quiçá, pela própria necessidade do ser humano em encontrar para si mesmo uma justificativa para sua própria existência, ou oriunda de um mundo além dos nossos sentidos, constitui uma herança psicológica comum que leva-nos a considerar a humanidade como um todo. Nesse sentido, existiria uma espécie de “alma mundi” que daria supedâneo às crenças, valores, critérios de julgamento, inspirações e outras manifestações que constituem à nossa vida interior, ou seja, a nossa psique. A esse conjunto de manifestações psíquicas, comuns a toda a todas as pessoas, em todos os tempos, ele deu o nome de Inconsciente Coletivo da Humanidade.

Por essa razão Jung estudou profundamente as tradições religiosas e culturais dos povos antigos, na forma dos seus mitos, crenças, intuições e todas as manifestações psíquicas que essas primitivas civilizações nos legaram. Destarte, a alquimia, as crenças gnósticas, o espiritismo, as tradições xamânicas, as religiões orientais, os chamados Mistérios iniciáticos antigos e as bases estruturais do próprio Cristianismo, com seus mitos e inspirações, juntamente com as práticas anímicas dos povos americanos, australianos e africanos, firmaram a base das suas convicções sobre a existência de um arsenal de ideias universais hipostasiadas, que se transformaram em princípios espirituais que dão sustentação à nossa vida interior.

Da extensa pesquisa que fez sobre a fauna que habita o  Inconsciente Coletivo da Humanidade ele emergiu com o vasto cabedal de conhecimento de onde extraiu a sua crença de que as motivações que estão na base da vida psíquica dos seres humanos recebem fortes influência de “tipos psicológicos” que já vêm “impressos” em nossa mente mesmo antes de começarmos a nossa experiência existencial. A esses “tipos” ele chamou de Arquétipos, mas na verdade, diz ele, eles são noções comuns a toda a humanidade, que são desenvolvidas pela espécie humana por força da sua própria razão de existir.

Quer dizer: se o homem não tivesse encontrado uma razão transcendental para explicar a sua própria existência, ele não teria evoluído da sua matriz animal para se tornar um ser humano. Isso não significa que Deus não existe, mas sim que Ele é diferente da imagem antropomórfica que fazemos dele. Pode ser visto como a energia que está no estofo do universo, como diz o filósofo Teilhard de Chardin[1], mas não deve ser imaginado como sendo um ser ontológico que pode ser representado por qualquer forma de imagem, como assevera a própria Torá.[2]

   

Quanto ao motivo de termos vinculado o trabalho de Jung à tradição maçônica, a nossa atenção foi atraída pelo  fato de ele ter chamado a jornada da vida humana, na busca de uma perfeita adequação entre a sua vida material e a sua vida psíquica, de Processo de Individuação. Esse processo, que se traduz por um método de conhecimento dos conteúdos totais da nossa mente, é necessário para possamos alcançar uma integração total da nossa condição de indivíduo.

Segundo ele, isso só ocorre quando conseguimos trazer para a consciência os conteúdos da nossa mente inconsciente, que são, em sua maior parte, inspirados por arquétipos compartilhados pela humanidade toda. Por isso ele diz: “Enquanto não tornares consciente o inconsciente, ele vai conduzir a tua vida e tu o chamarás de destino.”

Isso quer dizer que há uma influência muito grande dos chamados arquétipos sobre a as escolhas que fazemos na vida. Decisões que tomamos e que parecem ter sido motivadas por razões conscientes,  são, na verdade, inspiradas por padrões internos não percebidos pela nossa razão. Enquanto esses conteúdos permanecerem segregados na nossa mente inconsciente, nós repetiremos os comportamentos como se eles fossem inevitáveis e a nossa recusa em praticá-los pudesse ensejar algum tipo de punição insuportável. Um exemplo de comportamento inspirado por um “tipo psicológico” é a crença de que receber doação de sangue é uma ordem divina que não pode ser descumprida. Pessoas que se guiam por esse arquétipo preferem morrer mas não permitem que se façam transfusões de sangue com elas. Esse comportamento se inspira na proibição bíblica constante de Gênesis 9:4: Levítico 17:10-14 Deuteronômio 12:23, que proíbe o povo de Israel de comer carne com sangue. [3]

Não causará estranheza ao maçom iniciado na proposta teosófica da Maçonaria, que os objetos dos estudos de Jung tenham uma grande repercussão no catecismo maçônico, principalmente nas alusões constantes que ele faz a temas alquímicos e gnósticos, associados a mística da arquitetura antiga e medieval, e principalmente aos chamados Mistérios praticados pelos povos antigos na sua crença de que, com esses rituais, poderiam estabelecer uma relação simbiótica com seus deuses para que eles atendessem às suas demandas.

Não se trata aqui de estabelecer uma conexão direta entre Jung e a Maçonaria. Até porque sabemos que essa conexão não existe já que, tanto quanto sabemos, ele não era maçom e em nenhum dos seus trabalhos encontramos qualquer referência de que ele tenha se interessado pelas práticas dos chamados Obreiros da Arte Real. Embora algumas influências, oriundas do seu avô, Carl Gustav Jung Senior, que era maçom, tenham sido apontadas por alguns autores, nada há que comprove qualquer envolvimento de Jung com a Maçonaria, embora ele se considerasse “filho de Goethe”, o grande poeta e filósofo autor de Fausto, obra que ele considerava como fonte de inspiração para seus estudos das profundezas da mente humana.[4]

Mas se de influências diretas não podemos afirmar a existência, as indiretas certamente encontraremos na proposta acadêmica junguiana. Afinal, toda a sua família estava ligada a vida religiosa, sendo seu próprio pai um pastor evangélico. A Bíblia, com seus mitos grandiosos e seus fundamentos centrados em verdades eternas que não podiam ser contestadas,  de certo deve ter provocado profunda comoção interna na mente do jovem estudante que estava começando a tentar entender o mundo em que vivia e não encontrava adequação entre o que lhe era ensinado nas igrejas e o que observava no dia a dia.[5]

A propósito, Jung nasceu no final do século XIX (1875) e faleceu em 1961. Como se sabe, nesse intervalo de tempo, aconteceram profundas modificações na estrutura psicológica da humanidade, dando origem ao conturbado mundo em que vivemos hoje. Viveu a tragédia das duas grandes guerras da metade o século XX, conflitos motivados muito mais por questões de fundo psicológico do que por motivos sociais, econômicos e políticos. Na ascensão dos regimes totalitários, Jung pode ver, com clareza, o quanto a vida anímica dos povos pode ser afetada por doutrinas inspiradas por arquétipos que moram no inconsciente coletivo dos povos e dirigem suas mentes para fins nem sempre humanitários.

Por outro lado, no final do século XIX o embate entre os cultores da espiritualidade e os defensores da positivismo darwinista era intenso e ocupava grandes espaços na mídia intelectual. A Teosofia, inaugurada por Helena Blavatsky e popularizada por inúmeros seguidores, o Espiritismo, codificado por Alan Kardec e o espiritualismo moderno cultivado pelas irmãs Fox, faziam intensa oposição ao positivismo arraigado que havia se instalado entre a comunidade científica da época. No começo do século XX (1930) foram publicados também os resultados das pesquisas de JB Rhine, (1885-1980) sobre a existência de uma percepção extra-sensorial nos seres humanos, condição essa que ele comprovou através de mais de 90.000 experiências realizadas com várias pessoas diferentes e em diversos lugares e tempos diversos.  Em 1930, juntamente com o psicólogo William McDougall ele fundou o Laboratório de Parapsicologia da Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte. Esse laboratório foi fechado em 1965, com a aposentadoria de Rhine. Mas as pesquisas em torno da chamada percepção extra sensorial continuaram e hoje constituem um importante ramo da psicologia, conhecido como parapsicologia.

 

Tal como se nos apresenta a psicologia analítica junguiana, pensamos que ela pode ser o alicerce de uma nova Maçonaria especulativa. Não mais um filosofismo sem objetivo educativo, e principalmente, desprovido de qualquer espiritualidade.

É preciso recuperar a Maçonaria como fonte de pensamento sadio e progressista, agregador e arauto do melhor que a mente humana pode produzir.  A proposta deste trabalho é exatamente essa: percorrer os meandros desses dois objetos de estudos para mostrar aos Maçons e leitores interessados no tema, que tanto a psicologia analítica junguiana e a proposta espiritualista da Maçonaria têm o mesmo objetivo: desenvolver para os que neles se inserem um Processo de Individuação em busca do Si Mesmo, que se traduz pelo Ser total, equilibrado em sua vida psíquica e material. Esse processo, na verdade, nada mais é do que uma busca do equilíbrio interior que todo indivíduo precisa atingir para viver uma vida plena e isenta de constrangimentos psíquicos, que no mais das vezes, estão na raiz da  maior parte dos males que afligem a sua vida pessoal.

É nesse sentido que vemos no processo de aprimoramento espiritual que todo iniciado busca na Maçonaria um estreito paralelismo com o chamado Processo de Individuação da Psicologia Analítica desenvolvida por Jung. Não é outra a razão de se perguntar a todo Irmão que visita um Templo maçônico o que ele pretende obter da Maçonaria. E na sua resposta está a justificativa deste nosso trabalho. 

 

          Um lugar entre vós

 

          −De que Oficina vem esse Poderoso Irmão,
          Que as colunas da nossa Loja hoje enfeita?

         −V.∙.M .∙.venho de uma Loja de São João,
          Que como esta, também é justa e perfeita.
          −Nela, qual o tipo de trabalho e de atitude
          Vós tomais para construir o nosso edifício?
          −V.∙. M.∙.nós levantamos templos à virtude
           E aprendemos a cavar masmorras ao vício.
          −Perfeito, Poderoso Irmão; que mais trazeis? 
          − A todos trago saúde, paz e prosperidade,
          E meu V.∙.M.∙. vos saúda por três vezes três.

         −Irmão, divide conosco a luz que o ilumina.
           ̶  Sê bem-vindo à egrégora desta Irmandade;
          Ocupai um lugar em nossa Augusta Oficina.

 


[1] O termo "estofo do universo" foi cunhado pelo filósofo Pierre Teilhard de Chardin e utilizado no livro “ O Fenômeno Humano” para designar à essência primordial que constitui a textura fundamental, ou base constitutiva de tudo o que existe no cosmos. Em outros termos, é à energia que está na base de toda materialidade e também, segundo ele, do próprio mundo espiritual. Para Teilhard, essa matéria primordial evolui de forma contínua de dentro para fora de si mesma, formatando as realidades materiais e de fora para dentro dando existência à vida psíquica. Essa energia hospeda duas propriedades fundamentais: a expansividade, que faz com que ela gere um universo cada vez maior em temos de espaço e a interiorização, que a leva a enrolar-se sobre si mesma, como num dínamo, resultando numa complexidade cada vez maior, que a faz passar do material para o psíquico. De dentro para fora, a energia se expande formando o mundo material; de fora para dentro, ela se contrai nuclearmente, formando o mundo espiritual.

[2] Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Êxodo, 20:4

[3] Evidentemente, esse preceito bíblico tinha um caráter simbólico que foi hipostasiado ao longo do tempo dado ao caráter sacro que se dava ao sangue humano, considerado pelas civilizações antigas como sendo a fonte da vida, ou a própria alma da pessoa. Daí as tradições que se desenvolveram através de sacrifícios rituais em que o sangue era sempre uma oferenda apreciada pelos deuses.

[4] Vide, a esse respeito Jean-Luc Maxence, Jung é a Aurora da Maçonaria, Madras,2010

[5]  O resultado desse choque cultural é descrito no livro “Memórias, Sonhos e Reflexões”, obra publicada após a sua passagem para o Oriente Eterno.

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 28/09/2026
Alterado em 28/09/2026


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