João Anatalino

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Textos


A MÍSTICA DAS PROFISSÕES

 

O Ofício sacralizado

 

A literatura sagrada de todos os povos do mundo registra um tempo em que os ofícios eram sacralizados e cada um, além das técnicas exigidas para o seu desempenho, tinha  seus ritos próprios e processos de execução, o que fazia dele, mais do que uma forma de ganhar a vida, um método para elevar o espírito do seu praticante a um estado superior de consciência.

O ofício fazia parte de um plano sagrado que cumpria a determinação bíblica dada ao homem a partir do momento em que ele, ao comer do fruto do conhecimento, como diz a metáfora bíblica, passou a ser o responsável pelas suas escolhas e árbitro da sua própria história sobre a terra.

“Ganharás o pão de cada dia com o suor do teu rosto” foi a sentença que instituiu esse apostolado, e a forma de realizar essa determinação resultou no ofício, o qual tornou-se não só a expressão material de um resultado, como também uma espécie de magistério cujo aprendizado tinha como corolário a sublimação do espírito do seu praticante, aproximando-o, tanto quanto possível, da sua origem numinosa.[1]

Da sacralidade conferida aos ofícios derivou-se a tradição iniciática que a eles foi atribuída por algumas dessas práticas. E nessa conformação cada profissão desenvolveu uma ritualística própria, escudada em uma simbologia específica, cuja função era aliciar, no inconsciente do seu praticante, a energia primordial nele contida, para que ela, num processo de simbiose com o corpo, refletisse na mão do operador o que se passava no interior da sua alma. Com isso, o produto resultante do seu ofício tornava-se uma projeção do seu próprio ser, realizando no homem a vontade de Deus, que o fez à sua imagem e semelhança, o que quer dizer, para refletir no mundo os atributos do seu Criador.[2]  Destarte,  o ofício, mais do que o domínio puro e simples de uma técnica era, para o profissional consciente dessa atribuição, não só uma habilidade adquirida para fins de cumprimento de uma função social, mas, acima de tudo, uma forma de realização espiritual.

É possível perceber essa disposição já no mitologema bíblico dos filhos de Adão e Eva quando se atribui um caráter sacro à ocupação de Abel, criador de ovelhas, em oposição à de Cain, o agricultor. Nessa curiosa metáfora percebe-se claramente a influência arquetípica de um mito ancestral que determinou, por muitos séculos, a história dos povos que se desenvolveram nos primórdios da sociedade, uns vivendo do pastoreio, outros da agricultura, refletindo o inevitável conflito que o choque entre um e outro meio de vida naturalmente suscitam, quando praticados no mesmo ambiente.[3]

Nesse sentido, compreende-se que Jeová, um Deus originariamente cultuado pelos povos que viviam do pastoreio, tenha mostrado sua preferência pelas oferendas de Abel, o pastor, em oposição às de Cain, o agricultor. Não há nada de estranho nessa visão quando se sabe que o povo da Israel bíblica vivia quase exclusivamente dessa atividade econômica. Ela transparece claramente em todas as suas tradições sociais e religiosas, através de uma farta simbologia ligada às lides pastoris, em imagens que nos mostram o Cristo como o bom pastor, Moisés pastoreando os rebanhos do seu sogro Jetro, os patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, todos envolvidos em atividades pastoris, etc. Por outro lado, a história dos povos que povoaram a Palestina registra, que quando os israelitas chegaram à região, esta já era habitada por comunidades agrícolas bem desenvolvidas, o que nos parece uma razão clara para o estabelecimento dessas dissidências, que a rigor, ainda hoje se observam nessa conturbada parte do mundo.[4]

Esse é um claro exemplo de uma influência arquetípica a determinar, não só a psicologia coletiva de um povo, mas os próprios acontecimentos históricos, que a rigor, não parecem sofrer a corrosão do tempo e nem se alteram em razão das mudanças ambientais, sustentando com renovado vigor as ideias de Jung a respeito da existência de um inconsciente coletivo no estofo da vida psíquica da humanidade como um todo, e que dessa fonte comum nos vêm boa parte das influências que modelam a nossa personalidade. Historicamente, podemos até dizer que resultam dessas estruturas psíquicas a simbologia que sustenta a inimizade entre judeus e palestinos até hoje, mesmo que ambos os povos já não mais vivam dessas atividades.

 

A Mística das profissões

 

Destarte, eis a razão de encontramos, já nos chamados tempos históricos, a tradição de sacralização dos ofícios e a sua inclusão no domínio do esoterismo. E por consequência,  a necessidade de admissão do seu praticante na profissão através de uma iniciação ritualizada que fazia dela, mais do que uma forma de ganhar a vida, uma verdadeira religião.

Evidentemente, nem toda profissão alcançava um caráter de sacralidade capaz de produzir no seu praticante um estado de consciência que o levasse a um êxtase espiritual. Esse caráter sacro só se vinculava ás profissões mais nobres, onde o poder do intelecto se associava à destreza das mãos para confecção de um produto, que a rigor, tivesse a devida apreciação dos deuses. Daí o fato de se acreditar que algumas profissões, como a dos oficiais da forja, que transformavam metais em armas, utensílios e outros produtos necessários à vida comum das sociedades, assim como a medicina, a arquitetura, bem como artes como a música, a matemática, a escultura, astrologia etc., tenham sido ensinadas ao homem diretamente pelos deuses, e aqueles que nelas se destacassem deles recebessem sinais de predileção, tornando-se verdadeiras divindades.[5]

 

O caráter iniciático da profissão

 

Importante lembrar que embora a maioria dos profissionais dessas ocupações fossem iniciados, nem todos atingiam o ápice do desenvolvimento espiritual proporcionado pela prática da profissão. Daí o sistema hierárquico que foi se impondo ao processo à medida em que ele ia se tornando cada vez mais sutil em sua conformação. E como consequência do próprio desenvolvimento das necessidades sociais, ele se distribuiu em duas direções: uma, que conduzia a mente do praticante para uma atividade exterior, que se pode dizer profana e destinada a atender as exigências de uma sociedade cada vez mais necessitada dos produtos específicos da profissão, e outra, que atraia a energia psíquica despendida na execução do trabalho para dentro do interior do praticante, na esperança de alcançar um estado interior de consciência que somente a prática de uma religião era capaz de promover.

Explica-se, dessa forma, a razão de certas profissões terem ritualizado o magistério para a aquisição do conhecimento de suas práticas e as regras para a transmissão desse conhecimento, transformando-as em verdadeiros segredos corporativos. É que, no desenvolvimento das técnicas que se se tornaram comuns a cada uma delas, a estratificação que normalmente acompanha toda atividade profissional deu nascimento à “castas’ de profissionais diferenciados que viam no exercício do ofício muito mais do que uma simples ocupação que lhe permitia ganhar a vida.

Para estes, o ofício era como sacerdócio, e por consequência, certos segredos da profissão, que transcendiam ao conjunto dos conhecimentos necessários que deviam ser transmitidos aos profissionais comuns, passaram a ser restritos a uns poucos “iniciados”. Destarte, da necessidade de preservação das técnicas mais avançadas da profissão, para evitar que elas acabassem sendo aviltadas por pessoas estranhas ao “metier”, nasceu a mística que se vinculou a determinadas ocupações e o caráter de sacralidade que a elas se associou.

 

      O ofício do construtor como arquétipo

 

        A razão de Maçonaria ter adotado o ofício do construtor como ideia arquetípica para simbolizar a sua prática se explica pelo fato de que ela se define como a arte de construir uma sociedade perfeita onde os sonhos do indivíduo possam ser realizados em consonância com o ideal coletivo. A melhor definição dessa ideia se encontra no discurso do Cavaleiro Andrew Michel de Ramsay ao maçons franceses por ocasião da introdução do Rito Escocês nas Lojas da França em  1736, quando esse nobre escocês diz “que o mundo todo não passa de uma república onde cada nação é uma família e cada indivíduo um filho. E que era para fazer reviver e espalhar estas máximas essenciais, emprestadas da natureza do homem que a Maçonaria foi inicialmente estabelecida.”

Nesse discurso entende-se que o escopo da Maçonaria seria o de trabalhar para que a sociedade como um todo, pudesse alcançar um status que atendesse às necessidades da coletividade, e para o iniciado maçom um estado de consciência superior que se poderia chamar de espiritualidade consciente. Seria um processo de aprendizado em direção ao exterior do ser, que se consuma na construção de uma sociedade justa e perfeita, e na direção do interior do ser, que se consubstancia na aquisição de um espírito livre, fraterno, isento de preconceitos e ódios, temores e vícios que impedem o indivíduo de ser verdadeiramente feliz. Na verdade, nada diferente do Processo de Individuação preconizado por Jung em suas obras. Isso porque, para o maçom, a pedra bruta que precisa ser lavrada é ele próprio. É a sua própria personalidade, sua própria mente que precisa ser libertada das “asperezas”, da mesma forma que a matéria prima sobre a qual trabalha o talhador. Na linguagem da psicologia analítica, esse processo seria a integração do inconsciente na consciência, onde “sombra e persona” não se digladiam pelo controle da personalidade do indivíduo, mas trabalham em conjunto para manter o seu equilíbrio.[6]

Essa é uma formulação analógica que vê o iniciado maçom como uma “pedra bruta” que será desbastada pacientemente a cuidadosos golpes de cinzel, como faziam antigamente os maçons operativos. E quando ele se tornar uma “pedra talhada” deverá submeter-se a novo processo de aperfeiçoamento para se transformar numa “pedra cúbica”. Depois dessa transformação será levado ao “canteiro de obras da construção maçônica” e ali deverá cumprir uma função no “edifício” social e espiritual que a Arte Real se propõe a construir. 

       O maçom moderno utiliza o simbolismo dos arquétipos hospedados nos conceitos Liberdade, Fraternidade e Igualdade como ferramentas do seu ofício, da mesma forma que o maçom operativo usava o martelo e o cinzel no desbaste das pedras que iriam compor as antigas construções. É nessa conformação simbólica que ele executa golpes estudados sobre a pedra do seu caráter para dar-lhe a forma desejada, como se sugere na sua iniciação.

       Trata-se, portanto, de um processo, um magistério, um aprendizado que não se adquire em um só estágio, mas que demanda uma preparação, uma iniciação, um aperfeiçoamento e um acabamento. Uma longa jornada, que vai da mais humilde tarefa, praticada como mero reflexo muscular ativado pela repetição, à mais elaborada arte de engenho, na qual o espírito se envolve no seu mais alto grau de concentração. Daí os estágios de aprendizado(Aprendiz), Companheirismo (Companheiro) e Mestrado (Mestre).

 

O processo de individuação maçônico

 

Sabe-se que nas pedreiras de antigamente o trabalho do pedreiro era uma atividade de caráter iniciático. Trabalhava-se com maço, ponteira e cinzel em etapas distintas, conforme se produzissem pedras para alicerce, paredes ou acabamento. Cada tipo de pedra era trabalhado por operários especialmente treinados para o mister. Daí as graduações que se estabeleceram entre aprendizes e profissionais. Mais tarde, a atividade do artesão do maço evoluiu para um tipo mais sofisticado de trabalho que já se podia chamar de arte. Foi quando ele começou a tirar da pedra formas criadas por seu próprio intelecto. Esse tipo de trabalho demonstrava que o ser humano possuía uma inteligência criadora e que sua consciência podia ser projetada nos produtos  que suas mãos fabricavam.

A evolução da aplicação do engenho humano no trabalho de desbastamento de pedras se confunde com a história da evolução do seu próprio psiquismo. O termo maçom é derivado dessa ocupação e a espiritualidade que acompanha essa profissão decorre dessa projeção da consciência sobre a matéria. Daí a ideia de que o primeiro maçom foi o homem que desbastou a primeira pedra bruta, transformando-a em material de construção. E por consequência a tradição  que sugere ser a prática maçônica tão antiga quanto a presença humana sobre a terra. É também nesse sentido que podemos defini-la como a arte que promove interação entre a mente humana e os elementos da natureza para produzir obra de criação. Como prática operativa ela pode ser entendida como trabalho que constrói o mundo e como atividade especulativa uma fórmula que aprimora o espírito do indivíduo. Em ambos os sentidos é arte de construir, é uma forma de arquitetura. 

 

          O porquê do arquétipo Arquitetura

 

      O ofício de construtor sempre teve um caráter sacro, uma mística própria, uma aura de espiritualidade que tem acompanhado o ser humano através dos séculos. Conquanto o costume de sacralizar seu ofício já existisse entre os artesãos da construção na antiguidade, foi somente na Idade Média que esse costume ganhou status de verdadeira tradição. A comunhão da habilidade operativa com o ideal especulativo foi uma realização dos maçons medievais. Foram esses profissionais, mais religiosos que técnicos, mais místicos que filósofos, que perceberam que o ofício de construtor, pelas suas características de integralização de formas, manipulação de símbolos e conhecimentos de geometria e matemática era o que mais se prestava para atender à inclinação própria de uma cultura que não distinguia o esotérico do exotérico. A arte de construir era aquela que permitia ao seu praticante o provimento das necessidades profanas, e ao mesmo tempo, uma realização espiritual.

       Especialmente a construção de igrejas, pela mística que nelas se imprimia, era o que mais se prestava a produzir nos seus construtores uma sensação de mágica transcendência que os fazia crer serem eles os canais pelos quais fluía a própria inteligência divina. Na construção daqueles edifícios monumentais os artistas da pedra acreditavam repetir o trabalho de Deus na construção do universo.

         Com efeito, a catedral medieval não era apenas o local onde os homens podiam sentir-se em comunhão com Deus. Ela era um simulacro do universo onde todas as manifestações da existência humana se condensavam e encontravam o devido encaminhamento. O alquimista Fulcanelli descreve com precisão essa síntese do espírito medieval: “Santuário da Tradição, da Ciência e da Arte, a catedral gótica não deve ser olhada como uma obra unicamente dedicada ao cristianismo, mas antes como uma vasta coordenação de ideias, de tendências, de fé populares, um todo perfeito ao qual podemos nos referir sem receio desde que se trate de penetrar o pensamento dos ancestrais, seja qual for o domínio: religioso, laico, filosófico ou social”, escreve esse autor, denotando a densidade espiritual que se condensava  naquele edifício, refletindo todas as tendências da vida medieval. “Se há quem entre no edifício para assistir aos ofícios divinos,” prossegue,“ se há quem penetre nele acompanhando cortejos fúnebres ou os alegres cortejos das festas anunciadas pelo repicar dos sinos, também há quem se reúna dentro delas noutras circunstâncias. Realizam-se assembleias políticas sob a presidência do bispo; discute-se o preço do trigo ou do gado; os mercadores de pano discutem aí a cotação dos seus produtos; acorre-se a esse lugar para pedir reconforto, solicitar conselho, implorar perdão. E não há corporação que não faça benzer lá a obra prima do seu novo companheiro e que não se reúna uma vez por ano sob a proteção do santo padroeiro”[7].

       Nesse texto demostra-se, de forma insofismável, a convergência do espírito humano para um único ponto, onde ele poderia atingir um pico máximo de densidade, facilitando a comunicação com a divindade. Daí o fato de a catedral gótica ter sido considerada o arquétipo perfeito de todas as construções humanas e o modelo ideal para se realizar o aprimoramento do espírito através do trabalho manual. Essa mística, essa elevação da alma aos domínios mais sutis do espírito assemelhavam-se à prática da alquimia, que por visar a mesma finalidade, têm nas catedrais góticas da Europa o seu mais explícito testemunho, como bem demonstra o citado autor.[8]

        Diante disso, justifica-se o costume de os maçons operativos dizerem que Deus era o Sublime Arquiteto do Universo, enquanto eles eram seus “pedreiros”, construindo fisicamente os modelos do universo divino. Com efeito, na perfeição das formas, na solidez das estruturas, na harmonia do conjunto, obtida pela perfeição com que se elaborava cada detalhe, é preciso reconhecer nessa obra máxima da arquitetura medieval uma construção de espírito, realizada não só a partir da atuação do engenho humano sobre a matéria, mas da própria interação entre o espírito da matéria trabalhada e do artesão que a manipulava.   Dessa ideia, à uma sacralização do ofício do construtor, foi apenas um passo.

 

Do operativo para o especulativo

 

          Jean Palou diz que nos tempos primitivos o ofício sacralizado já pertencia ao domínio do esoterismo, razão pela qual seus conhecimentos eram transmitidos por iniciação.[9] Isso é verdade, pois embora todos os profissionais da construção, fossem, de certa forma, iniciados, somente a iniciação não lhes conferia uma realização espiritual total. Esta só acontecia com o cumprimento de uma longa cadeia iniciática, na qual se praticava uma liturgia ritual própria, onde o obreiro absorvia o “espírito” da profissão e com ele integrava-se, tornando-se um “eleito” “A iniciação”, escreve aquele autor, “em suas formas, em seus meios, em seus objetivos, Una em seu espírito, múltipla, porém, nas diferentes aplicações das técnicas peculiares a cada ofício, pela Sabedoria que preside à elaboração lógica da Obra, pela Força que possibilita sua realização efetiva, e pela Beleza que proporciona o Amor a cada realizador, isto é, o Conhecimento, ajudava o artífice a se despojar do homem velho, para se transformar num novo homem, criador de objetos e forjador de um novo mundo, finalmente harmonioso.[10]

       Eis a razão de não se permitir ao iniciado na profissão de construtor, inicialmente um mero aprendiz, compartilhar com os companheiros-mestres os mesmos símbolos, senhas, comportamentos e práticas. E mesmo entre mestres se impunham distinções de grau, pois se todos eram iniciados e ostentavam os mesmos títulos profissionais, muitos poucos, entretanto, eram “eleitos”, ou seja, tinham obtido elevação espiritual de modo a serem considerados mestres também nesse sentido.

       Quando a Maçonaria operativa evoluiu para o especulativo, e mais tarde, quando o especulativo integrou na sua liturgia as tradições do hermetismo, da cabala e da gnose, a mística da profissão do construtor aliou-se ao encantamento próprio da prática alquímica e ao apelo emocional contido na mensagem esotérica. Se anteriormente, o ofício de construtor se realizava num domínio que era antes de tudo religioso e social, passou, depois disso, a preencher um vasto campo no domínio filosófico e espiritual, pois a especulação, mais que a prática pura e simples de uma arte ou uma técnica exige mais da sensibilidade do artista do que a razão e a habilidade física requerem dele. O artista, o técnico, que antes aliava o sentimento religioso às técnicas da sua arte, encontrou nos domínios do esoterismo justificativas mais que simbólicas para a sua prática. Depois, no início do século XVIII, quando a Arte Real incorporou a mensagem iluminista, foi preciso o desenvolvimento de uma liturgia ritual que possibilitasse a divulgação da nova filosofia, mas que, ao mesmo tempo, transmitisse a mensagem iniciática original de uma inteligência que jamais abandonara suas tradições de buscar a espiritualidade no exercício de uma profissão, ainda que essa prática agora fosse apenas simbólica. A realização espiritual buscada no exercício do ofício, ou no simbolismo da filosofia hermética, passara agora a ser uma realização moral, onde o iniciado aprenderia a educar-se para ser virtuoso, a partir de um novo arquétipo de homem, que era o “Homem Universal”, inspirado no modelo iluminista. Era um aprendizado de filosofia moral em busca de um êxtase espiritual que a cadeia iniciática da Arte Real pretendia proporcionar aos que nela se iniciavam. E essa foi a costura que resultou no tecido filosófico que vestiu a Maçonaria moderna. 

 


[1] Numinoso é o caráter daquilo que é sagrado, transcendental. Na psicologia junguiana esse termo é usado para descrever conteúdos inconscientes (arquetípicos) que influenciam a psique humana com forças que, muitas vezes, estão além do controle da razão.

[2] Quer dizer: a suposta semelhança de imagem que o homem teria com o Criador não deve ser vista em termos de forma, mas sim de conteúdo, significando que o homem foi feito com os mesmos atributos do Criador, sendo um deles o poder de criar. Por isso, uma tradição renascentista conta que Michelangelo, ao finalizar a escultura de Moisés (hoje localizada na basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma), ficou tão impressionado com a perfeição da sua obra que teria batido com o cinzel no joelho da estátua e gritado: "Perché non parli?" (Por que não falas?)

[3] Historicamente, agricultura e pastoreio foram tratadas como atividades concorrentes, cujos praticantes disputavam espaços, muitas vezes, violentamente, ensejando verdadeiras guerras pela posse da terra. Mas, modernamente, essa visão mudou bastante e a prática de ambas, no mesmo ambiente, é vista com simpatia, trazendo benefícios para o solo e para o meio ambiente como um todo. No Brasil essa abordagem é conhecida como ILP (Integração Lavoura-Pecuária) ou ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), um sistema que tem transformado a dinâmica no campo, fazendo do agro negócio brasileiro um dos mais prósperos e produtivos do mundo.

[4] Ver, nesse sentido, Finkelstein e Silberman, A Bíblia não Tinha Razão, Ed. Vozes, 2008

[5] Podemos citar, à guisa de exemplo a alquimia, que se tornou, por excelência, uma prática que combinava objetivos sacros e profanos ao mesmo tempo. Acreditava-se que essa arte, que era derivada da prática da metalurgia, foi ensinada aos homens por um personagem chamado Hermes Trismegisto, que seria uma encarnação dos deuses Hermes (grego) e Hórus(egípcio). Outros exemplos dessa transcendência é a transformação de homens em deuses, como no caso de Asclépio, médico grego cultuado como deus da medicina e Imhotep, famoso arquiteto egípcio, cultuado como deus da Arquitetura. No mesmo sentido, temos também Hefesto (ou Tubal Cain na tradição bíblica), patrocinando a metalurgia e Aristeu a agricultura.

[6] No jargão da psicologia analítica Sombra e Persona são estruturas psicológicas que coexistem na psique humana. Elas desempenham papeis opostos nessa estrutura, mas são necessárias como polos de uma relação de complementaridade para a nossa atuação no mundo exterior. A persona é a face com que nos apresentamos ao mundo exterior e a sombra é a parte da psique que nós rejeitamos e reprimimos por julgá-la incompatível com a “cara” que temos que apresentar à sociedade. Integrar Sombra e Persona é fundamental para o equilíbrio da personalidade do indivíduo, o que, na Maçonaria, é o objetivo fundamental do magistério maçônico.

[7] Fulcanelli- O Mistério das Catedrais, pg. 50..

[8] Idem, op. Citado, pg 51

[9] Jean Palou- A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática, pg. 28.

[10]  Idem. pg.39. 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 21/10/2026


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