João Anatalino

A Procura da Melhor Resposta

Textos


INTRODUÇÃO

 

Este ensaio foi elaborado com o propósito de colocar para a análise dos leitores interessados no tema uma nova visão da Maçonaria que começa a ser projetada no século XXI. Essa visão aborda um foco até agora inexplorado pela maioria dos autores maçônicos, mas a nosso ver, muito relevante para uma revigoração dos ideais maçônicos, que se nos afigura, nestas primeiras décadas do século XXI, um tanto contaminados pelo niilismo de uma época que está abandonando os valores do passado, sem no entanto ter ainda constelado novos valores para orientar o novo rumo que está sendo desenhado.

Essa parece ser uma tendência padrão que se repete todo início de século, como se algum fenômeno cósmico alterasse a temperatura mental das pessoas, especialmente aquelas que exercem algum protagonismo, político ou tecnológico, incitando-as a promover eventos que alteram, para o bem ou para o mal, a vida da sociedade.

Esse fenômeno pode ser atribuído a algumas causas como o acúmulo de tensões sociais, provocada pela transição de gerações, as inovações tecnológicas desenvolvidas no fim do período anterior e que entram no mercado no século seguinte, provocando uma "virada de chave" que traz novas formas de viver, produzir e pensar, que exige também novas formas de organização e controle para fazer face ao novo status quo proporcionado por essas mudanças. [1]

 

Sabemos que a Maçonaria é uma sociedade concebida em fins do século XVII ou início do século XVIII, com o intuito de divulgar, de forma especulativa, ideias defendidas pelo Iluminismo, filosofia vigente entre a intelectualidade da época; e de forma operativa, desenvolver ações políticas e sociais destinadas a implementar, na prática, essas ideias.

Como mostram os fatos históricos ocorridos depois do nascimento da Ordem maçônica como instituição, ela foi, até certa época, eficiente em ambos os propósitos, pois além de se tornar uma organização de âmbito mundial, disseminando pelo mundo todo o ideal progressista pregado pelos filósofos do Iluminismo, praticamente todos os eventos políticos que moldaram a sociedade ocidental a partir da sua idealização leva a marca de um maçom como protagonista. Citaremos, apenas como exemplo, a Revolução Francesa, a Revolução Americana que deu origem aos Estados Unidos da América, as Revoluções que promoveram a liberdade das colônias latino-americanas, a unificação de países como a Itália, a Alemanha e a própria independência do Brasil, como eventos onde maçons atuaram como protagonistas.

Não saberíamos dizer se, nesse caso, é o cantor que faz o sucesso da canção ou a canção que faz o sucesso do cantor, quer dizer, se foi a Maçonaria que moldou a personalidade do indivíduo para que ele se tornasse protagonista de importantes fatos históricos, ou se foi a personalidade do indivíduo que fez da Maçonaria uma protagonista da História, como se ressalta em vários registros que atribuem à Ordem maçônica esse papel.

Nesse caso, o que podemos destacar é que, se o objetivo dos idealizadores da Maçonaria era o exercício de um protagonismo ativo na vida da sociedade, essa meta pode ser considerada como cumprida.

 

Dado ao próprio caráter da Ordem e considerando o ambiente em que ela se estabeleceu, a formação intelectual dos seus idealizadores e a própria finalidade que lhe foi atribuída ― disseminar  e desenvolver, na prática, o ideal iluminista ― a ela foi dado um caráter de sociedade secreta, possuidora de segredos arcanos que só podiam ser compartilhados por pessoas muito especiais, escolhidos e aceitos por seus próprios membros para nela serem iniciados.

Essa disposição, como se pode perceber, pode ser considerada como uma tradição arquetípica que já era praticada por antigas civilizações, onde certas castas sociais, principalmente aquelas ligadas à religião ― mais propriamente as castas sacerdotais― arrogavam a posse de segredos a eles comunicados pelos deuses e por conta disso eram considerados pessoas especiais. Com isso justificavam o exercício do poder e todas as regalias das quais desfrutavam.

Dessa prática nasceu a tradição encontrada na grande maioria das sociedades antigas, conhecida como Mistérios, prática de caráter religioso que tinha um objetivo político, que era a inserção, na casta dos “indivíduos especiais” das pessoas significativas na sociedade, e um objetivo psicológico, que era o de proporcionar ao iniciado uma experiência espiritual na qual ele próprio se revestisse de uma personalidade consentânea com a condição que lhe era atribuída como “iluminado”. O iniciado nos Mistérios tornava-se, assim, não só uma pessoa especial na sociedade mas também um “eleito” dos deuses. A eles eram associados, não só a posse de segredos que só a divindade compartilhava, como também poderes sobrenaturais que deles faziam verdadeiros super homens. Daí nascia o caráter mitológico que às pessoas desse naipe era atribuído.

 Assim, o caráter críptico que envolvia a prática dos chamados Mistérios tornou-se um arquétipo que se inseriu na alma coletiva da humanidade. Destarte, toda vez que se que se tratasse de dar fumos de poder a uma pessoa ou organização, uma das formas mais eficientes de fazer isso era atribuir-lhe um caráter de mistério e envolvê-la em uma atmosfera de obscuridade.

 Não foi outra a motivação dos idealizadores da Maçonaria especulativa quando deram a ela o formato de uma sociedade iniciática nos moldes dos Antigos Mistérios e a envolveram numa aura de mistério e ambiguidades. Daí o fato de a Ordem maçônica ter suscitado tantas indagações e virado objeto de muitas narrativas, no mais das vezes fantasiosas, sobre os supostos segredos que ela guarda, e principalmente sobre o caráter plutocrático que lhe é atribuído, trabalhando nas sombras da História, promovendo conjurações e outros movimentos de caráter conspiratório, com interesses inconfessáveis.

 

Um dos mistérios que envolvem a Ordem maçônica se refere à sua própria origem. Ninguém conseguiu recensear, até hoje, com provas indubitáveis, onde, como e quando ela de fato surgiu. Neste caso, falamos da Maçonaria enquanto ideia arquetípica e não como sociedade devidamente institucionalizada. Desta última nós temos os registros atestando o seu nascimento no início do século XVIII, com a fusão das quatro Lojas de Londres. Mas, antes dessa fusão as chamadas Lojas maçônicas já eram uma realidade na Grã Bretanha e no continente europeu, e da sua história e atividades, pouco se sabe.

          Nesse terreno caminhamos no escuro, mas sabemos que desde os tempos medievais o termo Maçonaria já era empregado para designar grupos de artesãos que se dedicavam ao exercício de determinadas profissões, como a construção de igrejas, e no exercício do seu “metier” já se colocava uma aura de mistério, que muito os aproximava das sociedades iniciáticas do passado. Daí, talvez, tenham sido extraídas as vinculações que a maioria dos historiadores da Maçonaria aponta, entre a Ordem maçônica e as Corporações de Ofícios medievais. Mas estas, pela falta de documentos comprobatórios, são tão dignas de crédito quanto as que reclamam sua origem templária ou cavaleiresca, ou mesmo os vínculos com as antigas tradições iniciáticas conhecidas como Mistérios. Tudo é pura especulação, assim como são os segredos atribuídos aos Rosa-cruzes, de quem alguns historiadores acreditam ter vindo a inspiração dos idealizadores da Maçonaria para a fundação da sua Ordem.   

  Para nós essas vinculações existem, mas só podem ser invocadas a nível de influência arquetípica, pois sendo a própria ideia de uma sociedade secreta que atua nas sombras da sociedade para o orientar o seu rumo, um “tipo” psicológico existente no Inconsciente Coletivo da Humanidade, não é estranho que ele tenha sido formatado em certo momento da História justamente para dar corpo à essa influência.  Destarte, o que vemos na institucionalização da Maçonaria é uma conspiração de ideias inteligentemente costuradas para colocar no repertório dos arquétipos que moldam a vida psíquica da humanidade um tipo psicológico que possa ajudar as pessoas no seu anseio por um processo que lhe permita alcançar desenvolvimento espiritual, e ao mesmo tempo, atender às exigências de um Ego que dele exige protagonismo social.

 O caráter esotérico e corporativo que se observa na Maçonaria, e que tem sido objeto de desconfiança e até repúdio por parte das confissões religiosas oficiais, nós atribuímos à idiossincrasia de uma época em que a polarização religiosa entre católicos e protestante classificava como heréticas todas as manifestações intelectuais que não estivessem de acordo com seus próprios cânones. Dessa forma, os católicos consideraram a Maçonaria como uma seita de orientação protestante, e os protestantes, por sua vez, acusaram os maçons de serem simpáticos ao catolicismo. Tudo isso decorreu da ignorância que as lideranças de ambas as confissões tinham com respeito à Maçonaria, que diga-se a bem da verdade, foi alimentada pelos próprios maçons ao insistir em manter o caráter críptico da Instituição.

 Todavia, como Anderson deixou bem claro em suas Constituições, a Maçonaria institucionalizada foi formatada como uma sociedade ecumênica que respeitava todas as crenças e não pregava a adoção de nenhuma por parte dos seus adeptos. Até porque, pelo seu próprio caráter social, ela não era uma religião, mas sim uma prática social e filosófica cujo objetivo seria a construção de uma sociedade justa e mais próxima possível de um ideal que satisfizesse a maioria das pessoas que nela vivem. É nesse sentido que podemos sustentar que ela é muito mais psicológica do que religiosa.

 A orientação hermética, gnóstica e neoplatônica que o catecismo maçônico adotou se deve, em nossa opinião, ao espírito renascentista que dominava o pensamento da intelectualidade na época em que a Maçonaria se tornou uma instituição. Podemos dizer, parafraseando Jung, que se o Cristianismo ortodoxo enfraqueceu o poder do simbolismo que se expressava nas antigas religiões, e os reformistas protestantes o debilitou ainda mais com a assertiva de que só a palavra escrita (a Bíblia) continha a verdade revelada por Deus, foi o Cristianismo místico dos gnósticos que preservou, tanto quanto pode, apesar da repressão da Igreja, esse poder. E a Maçonaria Simbólica e Iniciática, ao adotar os postulados do hermetismo, foi uma tentativa de restabelecer a influência que esses símbolos exercem sobre a psique humana.

 

 Forçoso é reconhecer que nos dias de hoje talvez a Maçonaria tenha perdido esse sentido. As dissenções políticas, os cismas, os confrontos de Egos que se observa entre seus líderes, as motivações ideológicas e os próprios interesses pessoais de seus membros, que muitas vezes se confrontam, enfraqueceram o ideal maçônico de tal maneira que hoje pouco se pode ver do pensamento que deu origem à Ordem. A espiritualidade que caracteriza a atividade iniciática parece ter sido substituída pelo ativismo político, de tal modo que vemos certas Lojas funcionando mais como comitês eleitorais de determinado partido do que como núcleos formadores de personalidades fortes e equilibradas, em condições de servir de luminares para a sociedade, como queriam os idealizadores da Irmandade. 

  É dessa visão que hoje temos sobre a Maçonaria que surgiu a intuição que nos motivou a produzir este ensaio. Quando a nossa consciência se descola dos ideais que nos motivam, o vazio toma conta da nossa vida e nós caímos num niilismo desagregador que não nos deixa ver sentido nas instituições que sustentam a vida social e, às vezes, até na nossa própria vida. É nesse ponto que os conteúdos do nosso inconsciente se tornam mais incisivos e perturbadores prejudicando o nosso equilíbrio psíquico. E mais perigosos se tornam quanto menos integrados estão na nossa consciência, porque deles não temos percepção e achamos que tudo é obra do destino, ou de um poder sobre o qual não temos nenhum controle. Por isso Jung diz: “até que os conteúdos do seu inconsciente se torne consciente, você será controlado por ele e você o chamará de destino.”

 O mérito de Jung foi ter trazido ao conhecimento da ciências da mente a existência de um Inconsciente Coletivo na Humanidade e mostrado que ele é uma espécie de matriz que hospeda noções e tipos psicológicos que independem da nossa psique para existir, mas atuam sobre ela sem que sobre eles tenhamos qualquer controle. Esse arsenal arquetípico pode ser considerado uma espécie de “alma” comum da espécie humana, onde todas as mentes do universo estão ligadas por um elo indissolúvel. Assim, se pela nossa mente consciente, os egos individuais promovem dissenção, mais separando as consciências individuais do que as unindo, quem sabe através desse “centro único” de manifestações anímicas, a egrégora de que fala a Maçonaria possa ser finalmente estabelecida como uma realização efetiva.

Então poderemos ter uma nova Maçonaria, construída sobre os mesmos alicerces, mas com um vigor renovado e mais consentâneo com o momento presente. Isso porque vivemos em uma época em que a psicologia e a religião, embora falem línguas estranhas uma para a outra, e utilizem diferentes ferramentas no exercício das suas missões, elas compartilham a mesma simbologia ancestral e buscam a realização do mesmo propósito. A religião chama esse propósito de salvação pessoal e a psicologia de sentido para a vida, ou como o define Jung, Processo de Individuação. No fundo, porém, é a mesma meta que está sendo buscada, e talvez ela possa ser alcançada com mais eficiência por uma estrutura que não se conforma a um molde ou outro, mas se adequa a ambos como a matéria prima do alquimista, que toma a forma do vaso onde se realiza a transmutação.

 


[1] Podemos citar, sem sermos exaustivos, no início do século XVIII as guerras religiosas e a revolução causada no pensamento ocidental pelo Iluminismo; no início do século XIX a revolução industrial e as guerras de independências das colônias; no início do século XX a implantação do comunismo, as guerras mundiais a reconfiguração politica que delas resultou, os direitos humanos e a ascensão social das mulheres; no início do século XXI as conquistas tecnológicas que fizeram do planeta uma verdadeira aldeia global.  

 

 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 23/10/2026
Alterado em 23/10/2026


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